2017

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Teremos dias melhores em 2018 para a cultura na nossa cidade?

E cá estamos nós vivendo os últimos dias de 2017, alguns contando os dias para acabar logo e começar um novo ano, com a esperança de viver um ano diferente e outros comemorando as conquistas dessa grande volta terrestre em torno da nossa grande estrela. Eu já estive muitas vezes nesse primeiro, e triste, grupo, neste ano tenho a felicidade e a gratidão de estar no segundo, 2017 foi provavelmente o ano mais intenso e desafiante da minha vida até agora. Cresci, superei desafios, realizei sonhos, nunca viajei tanto na minha vida (um desses sonhos que começa a se realizar, viver viajando com o meu trabalho). Dei conta do recado ao encarar desafios e pressões assustadoras, o que me faz terminar o ano com a convicção de estar preparado para levar meu trabalho para qualquer lugar do mundo, sejam quais forem as condições e dificuldades que surgirem. Conheci pessoas maravilhosas, ganhei novos amigos, talvez tenha perdido alguns, não por minha vontade. Vi minhas decisões tomadas lá atrás, algumas já nos primeiros passos, se mostrarem acertadas. Sementes plantadas na persistência do sonho, muitas vezes beirando à teimosia, quando quase tudo, e todos, indicavam que aquilo não daria em nada, dando os primeiros frutos.

Ajudei a criar, e a consolidar, juntamente com meu amigo Tomás Cajueiro, o Ocupe.Arte, projeto que nasceu como uma ideia despretensiosa, de montar uma exposição coletiva em um imóvel que estava vago, mas que não só sobreviveu à essa exposição, como também se mostrou altamente necessário tendo em vista a constrangedora incompetência demonstrada pelo poder público na área das artes visuais em Valinhos. Para 2018 o maior desafio para o Ocupe.Arte será como viabilizar financeiramente uma série de projetos que temos em mente, mas que serão impossíveis de serem realizados só com os nossos recursos.

Iniciativas independentes como o Ocupe.Arte, e outras que estão surgindo na cidade, me parecem serem cada vez mais necessárias diante da atuação pífia do poder público na área (não me digam que não foram avisados de que isso iria acontecer, eu avisei, aliás, avisei mesmo antes de 2017 sequer ter começado. Infelizmente eu estava certo). Tivemos que suportar uma administração que optou por seguir um caminho ruim, rasteiro, previsível, atrasado, desprovido de inteligência, onde qualquer coisa que se mostrasse minimamente intelectualizado foi sumariamente descartado, sabotado, onde se instaurou na cidade como política cultural predominante o entretenimento, as festinhas e diversões variadas. O que vimos nesse ano foi a cultura sendo tratada como perfumaria barata, como aqueles enjoativos e adocicados desodorantes vendidos naqueles frascos de plástico que se aperta no meio para espirrar, uma coisa que aparentemente foi criado para resolver um problema, mas que por ser tão ruim acaba piorando ainda mais o que já estava ruim.

Não tivemos uma única ação estrutural, não se falou uma única palavra sobre o problema da falta de espaços expositivos na cidade, aliás, os artistas não tiveram nenhuma chance de falar sobre isso já que foram sumariamente ignorados pela secretária, que se recusou terminantemente a se reunir com os artistas, coletivamente. Fomos totalmente ignorados como classe, aliás, desde 1996 eu participo da vida cultural da cidade e não consigo me lembrar de nenhum secretário, em todo esse tempo, que tenha se recusado a se reunir com os artistas, se apresentando, dizendo a que veio e ouvido o que tinham a dizer. Todos, absolutamente todos fizeram isso, podem até não terem feito muita coisa, mas não cometeram o desrespeito de ignorar a história e tradição que a cidade tem nessa área.

Conseguiram em pouquíssimos meses destruir o Conselho de Políticas Culturais, que hoje se arrasta moribundo, boicotado pelo poder público, que dita a agenda das reuniões conforme a vontade (ou má vontade) deles. A Orquestra Filarmônica de Valinhos termina o ano com muitas incertezas sobre o seu futuro. Sem apoio do poder público (mandar alguém para abrir e fechar as portas do auditório da Câmara Municipal uma vez por mês não é apoio, é obrigação!), que a vê como uma empresa lucrativa e não como uma das nossas maiores joias, um orgulho para a cultura da cidade, a orquestra já tornou público que será impossível continuar a programação de concertos que vinha mantendo. Perdemos nós.

Vale registrar também a iniciativa do portal Pé de Figo, que idealizou e organizou (com o apoio da prefeitura) o evento de comemoração dos 50 anos da Praça Washington Luiz, eu não pude ir porque estava viajando, mas sei que foi um evento de muito sucesso. Aconteceu também mais uma edição da Virada Sustentável, provavelmente a última vez que o evento aconteceu na cidade, já que o principal patrocinador está saindo de Valinhos. Tivemos também o lançamento do Instituto Pluricidade, que prometia atuar no desenvolvimento de diversas áreas, uma delas a cultura, mas após o lançamento pomposo na Câmara não ouvimos mais falar sobre o projeto e ainda não mostrou a que veio. O projeto Retratos Brasileiros, do fotógrafo Tomás Cajueiro, fez história, rodou mais de 10 mil quilômetros pelo estado de São Paulo, fotografando e ouvindo histórias de pessoas fascinantes. O resultado foi a edição de um belíssimo livro e a realização de três grandes exposições, infelizmente nenhuma aqui em Valinhos, apesar da base do projeto e alguns patrocinadores serem daqui, por falta de condições (uma delas a falta de espaços públicos adequados para exposições) não conseguimos trazer o projeto completo para a cidade.

Teremos dias melhores em 2018 para a cultura na nossa cidade? Eu acho que sim, finalmente começam a aparecer aqui e ali sinais de reações à essa situação absurda pela qual a cultura da cidade está passando. Aquilo que no começo do ano se restringia a umas duas, três pessoas que se manifestavam publicamente contra a essa nova administração na Secretaria da Cultura, hoje cada vez mais podemos ver críticas e manifestações de descontentamento vindas de diversos setores da cultura da cidade. A minha percepção é que, com exceção de alguns poucos gatos pingados que teimosamente, ou já sem nenhuma condição de abandonar o barco, continuam a apoiar publicamente a secretária, o resto (não estou falando só de gente de dentro da secretaria) finalmente chegou à conclusão de que se aquela estrutura sobreviver só será por demanda e interesses políticos, pois já passou da hora de parar tudo, fazer uma limpeza geral, e começar de novo. Um ótimo Ano Novo para todos, com muita cultura, e que ela consiga nos salvar da mediocridade, da ignorância e dos desmandos políticos.

 

 




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