A mesa

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Não temos um único lugar decente para exposições na cidade

No último sábado retornei de uma viagem a Blumenau onde estou realizando uma exposição no Museu de Arte de Blumenau, o MAB. Quase que invariavelmente volto dessas viagens com uma pergunta latejando na cabeça: “O que continuo fazendo em Valinhos?”. Uma sensação incômoda de que estou perdendo meu tempo num lugar que parece que nunca irá atingir um grau de desenvolvimento cultural à altura desses outros lugares, apesar do enorme potencial que possui na área.

Cheguei a Valinhos nos últimos dias de 1991 e aqui formei minha família e me construí como artista, e mais tarde como produtor cultural. Como artista tive a imensa sorte de desde o início ter percebido que o mundo era muito maior do que Valinhos e que se eu quisesse chegar a algum lugar teria que romper as fronteiras que limitam essa querida terra dos suculentos figos arroxeados.

Assim o fiz, mas sem nunca deixar de lutar para que a cidade onde tinha escolhido viver fosse um lugar onde a arte pudesse se desenvolver, um lugar onde eu tivesse orgulho de responder às sempre incômodas perguntas como: “Como é a arte, a cultura, em Valinhos? O que tem lá na sua cidade? Museus, galerias, teatros…? ”. Confesso que no passado já tentei melhorar a resposta, dourar a pílula, tentando descrever um quadro menos trágico do que era na realidade, na esperança de que as coisas pudessem mudar, hoje já não me iludo mais, e para essas perguntas a resposta é a mesma: Não temos quase nada.

Não temos um único lugar decente para exposições na cidade, onde eu pudesse oferecer para essas cidades que me recebem, uma troca de exposições, onde recebessem os artistas daqui e em contrapartida recebêssemos os artistas de lá. Enquanto os artistas daqui teriam suas obras expostas em ambientes exclusivos para exposições, com iluminação adequada, apoio de funcionários capacitados, prontos para ajudar no que fosse preciso, boa divulgação, coquetel de abertura, aqui teriam, na melhor das hipóteses, o saguão da prefeitura e água do DAEV para beber.

Como posso falar bem de uma cidade cuja Secretaria da Cultura exige 30 dias de antecedência para autorizar um projeto de um conhecido fotógrafo da cidade, que está rodando o estado, a colocar de uma simples mesa com uma impressora em uma praça no centro da cidade para imprimir fotos de graça para a população durante algumas horas num sábado de manhã? Um projeto que conta com patrocínio de grandes empresas locais e no qual eu orgulhosamente faço parte atuando como curador, assim como fiz parte em outros grandes projetos realizados na cidade, como o “Pontos de Cor”, “Os 60 anos de imagens de Haroldo Pazinatto” e o “Muros na Mata Atlântica”, projetos que fizeram história na cidade e que também não custaram um centavo para os cofres públicos municipais. Um problema que aqui demoraria um mês, ao custo dos altíssimos salários da máquina pública, foi resolvido rapidamente com um telefonema para um padre, que entendeu a importância do projeto e gentilmente cedeu a calçada da igreja para que o projeto pudesse ser realizado no último sábado.

É imensamente frustrante que mesmo após décadas de serviços prestados à cultura dessa cidade, ainda nos sejam impostos obstáculos que não encontramos em outros lugares (no mesmo dia em que soubemos que teríamos que solicitar com 30 dias de antecedência a autorização para usar o largo São Sebastião, pelo telefone, com menos de duas horas, obtivemos a mesma autorização em uma outra cidade onde ninguém nos conhece).
Eu sempre afirmei que a grande vocação de Valinhos era a cultura, e continuo, talvez utopicamente, acreditando nisso, mas isso nunca vai acontecer se o poder público não ajudar, ou pelo menos não atrapalhar quem está de fato fazendo as coisas acontecerem.

Genivaldo Amorim
Artista plástico e produtor cultural.

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