A morte foi uma festa?

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Em Junho de 1907, um jornal paulistano informava que a Câmara Municipal de Campinas autorizou a criação de um Cemitério no vizinho povoado de Valinhos. Em 1911 foi promulgada lei pelo executivo campineiro autorizando a construção. Dois anos depois, em fevereiro de 1913 a prefeitura era notificada pela Comissão Sanitária que o terreno “presta-se para o fim que se destina”. Em março as obras começaram e anunciava-se o dia 24 de Junho a inauguração do Cemitério.

A estação ferroviária de Valinhos dava o tom do crescimento daquele núcleo urbano. Segundo notícias da época, até o mês de outubro de 1909 já haviam sido embarcadas 06 mil sacas de café, podendo chegar até 10 mil sacas ao final da safra. Sua importância econômica era destaque “poucas estações da Paulista terão tão grande movimento”.

Em 1888, ano que ocorreu a abolição oficial da escravidão, as fazendas produtoras de café em Valinhos atraíram 1842 imigrantes europeus: italianos, portugueses, espanhóis, alemães e austríacos, conforme dados da imprensa carioca da época.

Nas primeiras décadas do século passado começaram os parcelamentos de algumas dessas fazendas em sítios. Exemplo desse retalhamento aconteceu com a Fazenda Santa Escolástica, em 1909, estando ali o imóvel adquirido para a construção do Cemitério.

Conforme recenseamento realizado pela prefeitura de Campinas em 1918, Valinhos tinha 5.484 habitantes. Esse considerável aumento do número de almas justificava, talvez, a construção de um Cemitério, entre outras questões dadas. Sendo uma delas, aliviar o incômodo de locomoção dos mortos, pelos vivos, até Campinas ou outros lugares.

A inauguração do Cemitério, como previsto, aconteceu no dia 24 de Junho de 1913, e para Valinhos vieram o prefeito de Campinas, Heitor T. Penteado e seu secretário Benedicto Octavio para assistirem as festas programadas. Três dias após esse evento, a população do distrito já angariava fundos para construir uma Capela no local.

A inauguração circulou na imprensa de Campinas e São Paulo daquela época e conforme matéria publicada, naquele dia faleceu a esposa do Sr. Manoel Theodoro de Oliveira, um morador do local. E também havia um desconforto no repórter, por que juntamente com o primeiro enterro, “deu-se a inauguração do campo santo conforme havia sido programadas, com grandes foguetórios, danças e urras”, o que vinha na contra mão de um ato que se presume ser motivo em todos os casos “de derramamento de algumas lágrimas e de alguns ais compungidos”.

O Cemitério foi inaugurado com um enterro, mas aparentando uma contradição, pois, segundo o repórter “Como se sabe, não há inauguração, seja o que for (que) não obrigue a grandes festas. A população de Vallinhos não ignora essa regra, porque, segundo se dizia, ella teve a ideia de festejar ruidosamente a citada cerimonia.” Concluía, mas em seguida deixou uma dúvida no ar: “Não se sabe se (Valinhos) a festejou”.

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Gérsio Pelegatti é professor da História não aposentada www.poetagemcronica.blogspot.com.br

 

 




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