À Rua Itália in memoriam

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Fiquei perplexo quando soube que a Rua Itália, no centro de Valinhos, foi asfaltada. Rua ladrilhada com paralelepípedos brilhantes que o tempo tratou de desgastá-los num intenso caminhar de cidadãos num ir e vir da escola, do trabalho, da igreja, do footing, das festas, do comércio, dos desejos. Nessas infinitas marcas deixadas sobre essas pedras, agora escondidas pelo piche, ali jaz um pedaço da história da cidade.

Desejei sequestrar algumas daquelas pedras para preservar uma fração da nossa memória material e imaterial, já que o nosso patrimônio histórico há muito tempo vem sendo tombado pelos tratores.

A rua chamada Itália é uma homenagem aos filhos desse país que partiram em direção as lavouras de café no Brasil durante o último quartel do século XIX. Narrativas sobre a história de Valinhos creditam aos italianos a tarefa da sua “construção”. Porém, contar a história sob esse olhar é colaborar com a invisibilidade dos trabalhadores negros escravos que estavam por aqui muito tempo antes desses europeus.

Em solo brasileiro esses imigrantes livres eram tratados, em geral, da mesma forma que os trabalhadores escravos. Existem diversos registros de movimentos desses trabalhadores contra esses desmandos e em Valinhos não foi diferente. Em 1896, na “Fazenda São Clemente”, quarenta colonos italianos fizeram a uma greve exigindo o pagamento à vista por alqueire de café trabalhado, conforme o combinado com a proprietária Maria Camargo.

Uma das formas de defesa usadas pelos italianos para preservarem suas tradições e promover a solidariedade mútua em eventuais necessidades foi a vida associativa nas Sociedades de Mútuo Socorro. A Rua Itália foi endereço da “Società Italiana di Mutuo Soccorso Umberto Io”, associação que foi presidida pelo fazendeiro Elias Pisciotta, italiano de importante posição social em Campinas e que apoiou outros movimentos reivindicatórios de seus compatriotas na região.

O Museu Municipal “Fotógrafo Haroldo Ângelo Pazinatto” guarda no seu acervo uma interessante foto que registra um encontro de várias Associações Mútuas de São Paulo realizado em frente da antiga Matriz de São Sebastião no início do século XX.

Importante ressaltar que não nego a necessidade de mudanças na nossa cidade, mas reivindico um olhar atento aos vários impactos que essas ações possam causar. Impermeabilizar a Rua Itália, além de sepultar o nosso passado também trará problemas no futuro, afinal a cidade é o ambiente.

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Gérsio Pelegatti é professor da História não o aposentada

 




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