Açaí com Farinha

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Estou de volta a Valinhos, depois de duas semanas na capital paraense, duas semanas de muito trabalho, calor e açaí com peixe e farinha (sem granola, banana, leite condensando e outras coisas que para o pessoal de lá é um verdadeiro insulto. Açaí é só com gelo e farinha, no máximo um pouco de açúcar). Eu diria que Belém é uma cidade intensa, intensa em tudo, nas cores, nos sabores, na confusão incrível do centro comercial, na luta incansável pela sobrevivência, na hospitalidade e simpatia das pessoas, no pitiú da região do Mercado Ver-o-Peso, na beleza incrível do pôr do sol na Baía do Guajará, na sensação do jambu na língua, e em tantas outros tesouros que aquela terra oferece aos que lá aportam. Há ali uma América real, autêntica, autêntica até nas suas tentativas de arremedar o colonizador, como nos detalhes bem trabalhados dos suntuosos palácios, hoje bem tratados museus, ou nas fachadas de azulejos, que mereciam melhores cuidados, mas que mesmo assim me encantaram, e me enfiaram mais ideias na cabeça. Me encantei com Belém, e voltei com vontade de voltar lá mais vezes, de explorar mais aquele norte quente e luminoso.

Fui a Belém para uma exposição no museu Casa das Onze Janelas, imenso edifício histórico construído no século XVII, com vista privilegiada para a Baía do Guajará e que desde 2002 abriga o mais importante museu de arte moderna e contemporânea da região norte do país. Um privilégio expor ali, ter aquela imensidão de espaço ao meu dispor, que me fez sentir um artista latifundiário ao me lembrar dos meus caros colegas aqui em Valinhos, ainda sonhando e lutando por um espacinho decente para expor sua arte, e nem precisaria ser tão grande, um quinto do que tive lá já nos fariam muito satisfeitos aqui, bastando que fosse um espaço para a arte, só para a arte, exclusivamente, não sobras maquiadas.

A minha responsabilidade, e de qualquer outro artista que vá expor lá, em ocupar aquele lugar aumentou muito depois da luta travada pela classe artística contra um projeto milionário que queria desalojar o museu, que tem uma das vistas mais privilegiadas da cidade, para instalar ali um polo gastronômico. Enfrentaram todo o poder político e econômico do projeto, que tinha como garoto propaganda o estrelado chef Alex Atala, que era cotado para dirigir o tal polo gastronômico, mas que diante da pressão da classe artística teve o bom senso de sair do projeto, que aliás, era uma boa ideia, todo mundo era a favor da criação do polo, só eram contra a ideia estúpida de desalojar um museu, que funciona muito bem, que é uma referência não só para o estado do Pará, mas para o Brasil, para a implantação do polo gastronômico.

Há nesse caso um grande exemplo da força da classe artística, que quando unida é capaz de barrar as maiores insanidades do poder público. Não há possibilidade de mudanças em lugares onde os artistas aceitam calados, inertes, em nome de uma suposta política de boa convivência, a incompetência, falta de visão e conhecimento do que é cultura, do poder público. Lugares onde esse tipo de coisa acontece estão fadados ao eterno populismo barato, acéfalo, da velha política do pão carunchado e circo ruim, cuja exclusiva preocupação dos mandatários da cultura é aparecer bem nas fotos e ajudar o mandatário-mor a permanecer no cargo. Infelizmente o que não faltam no país são exemplos disso, de péssimos administradores púbicos, que se cercam por hordas de comissionados tão incompetentes quanto, para juntos determinarem os rumos que a cultura vai tomar. Por outro lado, uma comunidade artística apática, sem forças, que coloca o próprio destino na possibilidade remota de alguma coisa mudar por algum acidente de percurso, está fadada ao fracasso. A verdade é que nada mudará, e os anos e décadas se arrastarão, e quando os artistas se derem conta, o tempo terá passado e já não haverá mais possibilidade de mudanças. Parabéns aos artistas de Belém, que não se curvaram, que sirvam de exemplo.

Eu acho que aqui em Valinhos há mudanças surgindo no horizonte, vejo com bons olhos algumas ações, ainda tímidas, mas promissoras, de parte dos artistas, se unindo, se fortalecendo, arregaçando as mangas e tomando as rédeas dos rumos da arte na cidade. Se persistirem isso pode dar bons frutos futuramente. O tempo dirá.

Genivaldo Amorim é artista plástico e produtor cultural.




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