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Ao longo das últimas semanas, o Pé de Figo tem trazido uma série de textos que compõem o livro Crônicas da Resistência: em tempos de desconfiguração da Política Nacional de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas, publicada pela Associação Brasileira de Saúde Mental – Abrasme, com o apoio da Central de Cooperativas e Empreendimentos Solidários do Brasil – Unisol Brasil.

Nesta edição, trazemos o texto “Enfim a Idade Média”, escrito por Walter Ferreira de Oliveira, que faz um paralelo da atualidade que estamos vivendo com os tempos medievais, uma “medievalidade moderna”.

Enfim, a Idade Média

Walter Ferreira de Oliveira, 22 de dezembro de 2017

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Todos os sinais apontam para a chegada do Brasil à Idade Média. Um dos mais fortes é a maneira de exercer o poder. Presidentes se encontram com bandidos na calada da noite e agem como reis, usando todos os recursos para fazer valer sua vontade. Ministros que não respeitam mecanismos de controle social. Juízes sem pudor de usar o poder absoluto em favor de amigos e parentes. Parlamentares se corrompem abertamente. Populares que massacram e chacinam miseráveis e malfeitores. Uma ciência que abdicou do humano em prol exclusivamente do número. E uma guarda que não titubeia em usar armas contra os que se rebelam. Tudo cheira a absolutismo, atraso, selvageria, sujeira, obscurantismo e opressão. Típico da era medieval.

O Brasil não chegou à Idade Média com atraso, em uma temporalidade linear. Chegamos à era do domínio de reis e papas por fatores sentimentais. A elite brasileira sempre se sentiu melancólica por não ter passado pelas eras históricas vividas pela Europa. O Brasil não teve reis e cortes medievais, cavaleiros, bailes barrocos, revoluções religiosas, nem mesmo a peste negra. Nossa elite vive o poder, mas sem a pompa e o esplendor do período feudal. Um poder tranquilo, mas monótono, sem glamour, exceto pelas noites dos antigos cassinos, os bailes de carnaval do Teatro Municipal e outros eventos onde seu brilho é ofuscado pelos que herdaram a glória da nobreza europeia. A posse de latifúndios e a exploração dos trabalhadores que sustenta o minúsculo parque industrial nacional são típicas de um país agrícola que jamais alcançou a modernidade do primeiro mundo civilizado e industrializado.

Mas o sonho da elite era a sensação do poder absoluto, de vida e morte, a garantia de impunidade contra qualquer crime, só alcançado pelos papas e reis europeus da idade clássica.

A chegada da democracia ao Brasil, insidiosa, quase furtiva, associada à massificação da tecnologia de informação roubou de nossos poderosos o glamour que vinham conseguindo minimamente experimentar. A elite tupiniquim se viu ameaçada, questionada, cobrada de transparência, tendo que prestar contas, dividir poder. Muita humilhação para uma classe decadente, anacrônica e à beira da depressão. Era chegada a hora de tomar uma atitude.

Premida por suas frustrações, calcada em sua épica boçalidade, movida pelo ódio aos pobres, aos funcionários comuns, e mesmo à classe média, a elite tropical tramou a invasão dos órgãos de exercício do poder. Apoiada pelos esquemas internacionais de dominância capitalista global executou um plano audacioso, de destruição da soberania nacional e dos que possivelmente poderiam resistir, tais como universidades públicas e o setor publicam em geral. O servidor público passou a ser inimigo número 1, os sindicatos e outras organizações de defesa de direitos, a Educação e os esquemas de bem-estar social tornaram-se alvo de incursões destruidoras.

O comportamento medieval está posto, embora com algumas limitações impostas pela realidade contemporânea. Os poderes políticos, econômicos e administrativos apelaram ao indispensável suporte da mídia comprometida para golpear a soberania nacional. Os juízes afrontam a Constituição e a Ética do Direito. Os políticos afirmam sua onipotência e lutam vigorosamente para ampliar o absolutismo de seu poder. Os especialistas de plantão, através de suas ameaças apocalípticas de ruína econômica buscam apoio do povo para destruir os direitos dos trabalhadores.

A mídia insufla a população contra os professores, médicos, assistentes sociais, garis e outros servidores do baixo clero, apontados como responsáveis pela dívida pública e portadores de grandes privilégios. Manipulam dados, omitem discussões e apostam na desinformação, disseminando a ideia de que se não acontecerem as “reformas” preconizadas pelos déspotas só restará a fome, o desemprego, a insegurança. Mas não tocam nos grandes e verdadeiros privilégios travestidos de emendas parlamentares, propinas e outros crimes de corrupção protegidas por foros privilegiados, financiamento de campanhas, perdão a dívidas empresariais, renúncias fiscais, nepotismo, alocação de assessores a deputados, senadores e ex-presidentes, auxílios moradias, auxílios paletós, e quejandos.  Estes sim, merecedores de uma grande reforma porque promovem grandes rombos na economia.

Mas a manutenção destes privilégios é parte da atitude medieval. Os potentados tropicais sentem, assim, que nada os atinge, que atingiram a glória, que finalmente podem se dizer absolutos em seu poder. A arrogância, a truculência, o autoritarismo, a sede de sangue, as carnificinas, o maltrato a presos, idosos, crianças, adolescentes, indígenas, pessoas com transtornos mentais e outras minorias equivalem, nesta atitude medieval contemporânea, à forca, ao chicote, ao suplício. Políticos, juízes e empresários cultivam, por um lado, a submissão pelo terror, e por outro mostram ser também magnânimos, bondosos, ao prover os que se conformam com seus presentes e benesses.

Uma Idade Média estilizada, algo sofisticada e tecnológica. Mas ainda grotesca, inculta e cruel, como convém ao espírito medieval.

 

Walter Ferreira de Oliveira é Doutor em Philosophy, Social and Philosophical Foundations of Education Program – University of Minnesota, professor daUniversidade Federal de Santa Catarina (UFSC), líder do Grupo de Pesquisas em Políticas de Saúde / Saúde Mental (GPPS), e presidente da Associação Brasileira de Saúde Mental (ABRASME).

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