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Ao longo das últimas semanas, o Pé de Figo tem trazido uma série de textos que compõem o livro Crônicas da Resistência: em tempos de desconfiguração da Política Nacional de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas, publicada pela Associação Brasileira de Saúde Mental – Abrasme, com o apoio da Central de Cooperativas e Empreendimentos Solidários do Brasil – Unisol Brasil.

Nesta edição, trazemos o texto “Fomos a Bauru”, escrito por Paulo Amarante, contando os sentimentos, lembranças e vivências que o atravessaram no Encontro Nacional 30 Anos de Bauru.

Fomos a Bauru

Paulo Amarante, 10 de Dezembro de 2017

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Fomos à Bauru. Apesar de todas as dificuldades. Fomos de avião do Rio pra São Paulo e vice-e-versa. De Sampa pra Bauru fomos e voltamos de carro, exatamente como em 87.

Pois é, fui à Bauru em 87, fui em 2007, nos 20 anos, e agora em 2017, nos 30 anos!

Espero ir nos 40 anos e (ainda) não fazer parte daqueles slides projetados no telão. Embora não conseguisse enxergar muito bem (não apenas devido às minhas limitações, mas também pela extrema claridade do ambiente), pude entender que ali estariam fotos de Carrano, Lancetti, Fabio, Marcus, Eduardo Araujo, Geraldo, Maria do Socorro, Rose, Deusdeth, Maurício e outros que já se foram e fizeram parte dessa luta!

Devo dizer que fiquei realmente surpreso com a demonstração de alegria e felicidade que muitas pessoas expressaram ao me ver! UsuáriXs, ex-usuáriXs, familiares, técnicXs, alunXs e ex-alunXs, amigXs de tantas épocas e partes do Brasil e do mundo.

É maravilhoso sentir a emoção das pessoas ao me verem depois de tudo que vivi. E não imaginava que conseguisse participar de mais um momento histórico como esse (a imagem da bengalinha deve ter contribuído para isso).

Fiquei muito sensibilizado com as manifestações de carinho e afeto verdadeiro.

Expressão de carinho materializada também nos presentes vindos de longe. Que, de fato, foram pensados em mim, pois é tudo que gosto. Grato, mais uma vez, pela delicadeza e lembrança!

Para mim, foi também uma maravilhosa oportunidade para apresentar meu livro de lembranças, causos, fantasias, contos e crônicas (não de memórias).

No último dia, após a atividade cultural, saímos a pé pela cidade, Ana Pitta, Walter Oliveira, Anna Luiza, Leandra e eu, buscando um restaurante para podermos comer. E caímos exatamente no mesmo restaurante em que jantamos após a passeata de 87.

Ana e eu nos emocionamos por lembrar tão afetivamente do lugar e recordamos a mesa em que sentamos assim como as pessoas que estavam conosco e até mesmo a louca aventura que foi retornar na manhã seguinte pra São Paulo num Fiat 147 com João Ferreira ao volante.

Finalmente (por enquanto, pois posso lembrar de outros aspectos depois…), fiquei muito feliz também por ver que o movimento está sendo renovado com novas pessoas, ‘usuários’ e ex-usuários militantes de várias áreas da saúde, saúde mental, luta antimanicomial, reforma psiquiátrica, direitos humanos, gêneros, sexualidades, etnias… E me senti orgulhoso por, de alguma forma, como professor, formador, militante e autor, ter contribuído com isto.

É bom viver de novo!

Viva a luta antimanicomial!

A luta antimanicomial está viva!

 

Paulo Amarante é Doutor em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz, professor e pesquisador do Departamento de Direitos Humanos, Saúde e Diversidade Cultural da ENSP/Fiocruz, pesquisador do Laboratório de Estudos em Saúde Mental e Atenção Psicossocial (LAPS/ENSP/Fiocruz) e presidente honoris da Associação Brasileira de Saúde Mental (ABRASME).

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