Em mais uma moção, vereadores revelam contradição de discursos

0

Como promover a emancipação social da mulher sem combater o machismo, promovendo a igualdade de gênero?

Depois de quatro anos de ausência de mulheres nos cargos de maior poder na administração da cidade de Valinhos, tivemos no pleito de outubro de 2016 a ascensão de duas delas para as bancadas da Câmara, e uma para a prefeitura. A Profa. Laís Helena, que já tinha feito história por ser a primeira mulher vereadora, o que aconteceu apenas na nona legislatura municipal, assumiu a partir de 2017 também a marca de primeira vice-prefeita.

Já no legislativo municipal, Dalva Berto e Mônica Morandi foram as duas que conseguiram superar a hegemonia masculina na casa de leis. Apenas duas, em dezessete cadeiras. O que não significa necessariamente um avanço, já que na 12ª legislatura, tivemos três vereadoras, e uma suplente, a própria vereadora Dalva, que exerceu a função por um período.

Porém,  depois de quatro anos sem a presença feminina, naturalmente as eleições foram bastante celebradas em discursos pela maior participação das mulheres na política. Nas primeiras sessões legislativas deste mandato, e principalmente naquela em homenagem ao dia das mulheres, que aconteceu em 07 de março, e marcou a entrega da medalha Sarah Kubitschek, a Vereadora Dalva encabeçou muitos destes discursos.

“No universo de 14 homens (sic), contado o Prefeito, temos um total de 35% dos cargos [do poder executivo] ocupados por mulheres, pela primeira vez na história. (…) No entanto, é pouco serem eleitas [para o legislativo] apenas duas mulheres. Precisamos de mais mulheres aqui, não só com palavras, mas com ações concretas na busca por seus espaços.” Vereadora Dalva Berto, na sessão do dia 07 de março.

É imperativo apontar o contraste entre estes discursos de empoderamento da mulher para a política, com as absurdidades disparadas na última sessão, quando da discussão da moção contra o ensino de gênero nas escolas.

A própria vereadora Dalva discursou na sessão da terça-feira (31) dizendo-se indignada com a tentativa de implementação do ensino de gênero para as crianças, o que, segundo ela, tem como objetivo a destruição da família. O discurso foi acompanhado por outros vereadores, que também haviam pedido, no início do ano, por maior participação feminina na casa.

O ensino de gênero é essencial no processo de emancipação social da mulher, para que elas passem a ocupar os espaços que sempre lhes foram tolhidos. É preciso ensinar às nossas jovens que elas também possuem capacidade para administrar um município, e ensinar aos jovens a respeitar as mulheres que ocupem estes postos. Mostrar que os papéis de gênero que se perpetuaram em nossa sociedade retiram das mulheres a igualdade na busca destes cargos é o único modo de garantir, no futuro, uma maior pluralidade nos cargos de poder, tirando o Brasil de uma incômoda 92ª posição no ranking de igualdade de gênero que pesquisou 159 países.

A completa contradição entre as falas nos dois momentos refletem uma situação preocupante, em que, cada vez mais, discursa-se sem uma real reflexão sobre o peso de suas palavras. Repete-se o que se lê nas redes sociais sem saber interpretar e contextualizar o tema. Fecha-se em sua bolha social sem se dar conta que vivemos na era da pós-verdade.




Deixe um comentário

Por favor, digite seu comentário.
Por favor, digite seu nome