Enredo de Bambas

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Passado o período eleitoral (2016), revisitei uma amizade ausentada por uns meses, numa combinação prévia e dada pela nossa oposição das ideias e voto, daquele momento. Passado o primeiro domingo de outubro e tendo a fervura diminuída, escolhi um final de tarde mais frio do domingo que ultimava o mês eleito para uma boa dose de prosa e uns goles de cachaça. O reencontro desses quase 35 anos de amizade aconteceu na presença de costumeira cumplicidade. Entre conversa e outra, sempre uma nova ideia, dessas que vão dando combustão nas relações entre amigos, como devem ser as amizades. Quase próximo da despedida ganhei de presente um CD com “Sambas de Valinhos”, na gostosa e inspiradora interpretação de Armando Luís Musselli, o Sapinho. Volto para casa ouvindo o presente recebido, que além da qualidade musical do autor, vai revelando um importante documento para a nossa história. Ali, um pouco de uma das tantas outras identidades do povo valinhense: a construção de um samba italiano.

A história valinhense escrita por seus memorialistas foram escolhas que nos acomodaram dentro de um determinado tempo e espaço. Para a “sofrida ausência” de um fundador nobiliárquico, data e hora, essa história pariu Vallinhos após a passagem da primeira Maria-Fumaça, ligando a Europa até Campinas. Tempos depois, esses vagões também descarregaram braços para o café, principalmente os italianos. Nesses sujeitos, a nossa paternidade com papel passado. Interessante ressaltar que “nossos genitores” foram somente as famílias que conseguiram amealhar fortuna com os figos – o cavalo de Troia – a representação da astúcia de um povo, nesse caso “os pioneiros”.

Regina Jesuíno, a Tia Rê

A história, necessariamente não foi aquilo que aconteceu no tempo, mas o que falaram como aconteceu. Feito as escolhas, outros ficaram de fora, como a enorme população negra e escrava que sustentou a riqueza dos barões do café que por essa terra desfilaram. A linha férrea, financiada pela riqueza desses homens, retirada a fórceps do trabalho escravo: os ausentes da história. Nesse hiato de caminho, onde fomos paridos.

Mas a história também é resistência e aqui faz morada. Todo mês na Estação Ferroviária de Valinhos, acontece o Samba da Tia Rê, uma justa homenagem póstuma a Regina Jesuíno, que foi integrante assídua da Escola de Samba Arco Íris e amante do samba de raiz e da raça. Nesse grande encontro dos tambores, o batuque marca a cultura de um povo ausente dos livros, mas presente na plataforma aguardando embarcar na esperança do futuro. Jesuíno, genuínos!

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Gérsio Pelegatti é professor da história não aposentada

Fotos: Arquivo Samba da Tia Rê




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