Joga as casas pra lá, joga as casas pra cá, faz caringundum

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Hoje é domingo, dia 06 de agosto, uma data especial. Há 107 anos nascia o poeta compositor Adoniram Barbosa.

No Districto de Vallinhos nasceu João Rubinatto, filho de imigrantes que deixaram a Itália no final do século XIX em busca de trabalho e felicidade. O Brasil foi destino para milhares de homens, mulheres e crianças. Apesar do trabalho nas lavouras de café a vida foi difícil para essa brava gente. Grupos familiares se deslocavam saindo de áreas rurais e buscando melhores condições em regiões urbanas. João Rubinatto e sua família foram se deslocando de cidade em cidade até chegarem a capital paulista.

O compositor e sambista Adoniram Barbosa nasceu da poesia cotidiana que a cidade de São Paulo produzia com a sua rápida industrialização e transformação urbana. Essas mudanças atraíram para essa cidade uma massa de trabalhadores oriundos de várias regiões brasileiras. O olhar atento de Adoniram traduziu em delicadas linhas, sambas que nos mostravam a cidade paulistana com seus diferentes tipos urbanos e dialetos, os excluídos, as mulheres da noite, as tragédias cotidianas. Muitas vezes expôs a nossa desgraça social em generosas doses de humor.

 

São Paulo na década de 50

Dois sambas de sucesso em todo o Brasil apontam para a questão da falta de moradia para os trabalhadores. Em “Saudosa Maloca” Adoniram nos revela a ocupação de um palacete assobradado e abandonado que fora transformado em abrigo por um grupo de amigos moradores de rua que não se encaixavam nas engrenagens do progresso paulistano. Os excluídos daquele processo de transformações foram forçados pelos interesses do mercado imobiliário a desocuparem o lugar. Enquanto a locomotiva do Brasil produzia riqueza para alguns, também gerava a pobreza e exclusão de muitos outros, uma das contradições do capitalismo. Alguns anos mais tarde outro poeta, o baiano Caetano Veloso, ao compor a música “Sampa” nos falou da “força da grana que ergue e destrói coisas belas.”.

No samba “Abrigo de Vagabundo”, Adoniram retoma a temática da habitação, agora sob a perspectiva da aquisição da moradia através do trabalho. O samba mostra que o dinheiro foi conquistado trabalhando o ano inteiro numa cerâmica fabricando potes. Assim conseguiu comprar um lote com “10 de frente e10 de fundo” numa distante região periférica da cidade de São Paulo. Ao descobrir que sem uma planta não era possível construir sua casa, lança mão da amizade com o “João Saracura” que é fiscal da prefeitura para “facilitar” a execução da obra: “Minha maloca, a mais linda que eu já vi, hoje está legalizada ninguém pode demolir.”

Se olharmos para Valinhos na atualidade encontraremos resquícios dessas composições do seu filho mais ilustre, apesar da minha convicção que o Adoniram Barbosa é fruto da poética paulistana. Nas últimas três décadas a nossa cidade tem recebido dezenas de intervenções urbanas voltadas aos interesses especulativos do mercado imobiliário, produzindo condomínios fechados e direcionados a uma população de maior renda. Ficando os trabalhadores de menor renda e qualificação profissional excluídos dessas intervenções e das políticas públicas de moradia. Tal qual um samba de Adoniram: joga as casas pra lá, joga as casas pra cá, faz caringundum.

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Gérsio Pelegatti é professor da história não aposentada





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