Não existe espaço vazio. Então quem vai ocupar?

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Vivi dos quatro aos catorze anos de vida na região dos DICs, na periferia de Campinas. Várias das vezes em que contei sobre este fato para alguém, fui indagado sobre como era a infância num local tão violento. Confesso que nas primeiras vezes eu não entendia a pergunta.

Me lembro muito bem de passar os dias jogando bola com os amigos na rua de casa, e muitas vezes ter o jogo interrompido por vizinhos irados com as boladas em seus portões; de ficar até tarde da noite brincando de esconde-esconde, aproveitando o breu da ineficaz iluminação pública; de descer com os amigos para o bosque do bairro com a bola embaixo do braço. “Se eu for te procurar e você não estiver lá, você vai se ver comigo! ”, dizia minha mãe. Foi uma infância (e início da juventude) que, apesar de todas as dificuldades, esteve sempre preenchida pela presença de amigos, vizinho e conhecidos do bairro, que quase sempre se ajudavam a superar os inconvenientes de uma vida pobre. Não foi uma infância violenta.

Depois de passada esta fase, me mudei com minha família para o Jardim Nova Europa, e logo depois, para a Vila Industrial, regiões mais nobres e centrais da cidade, e a rotina sofreu um choque. A partir de agora, nestes bairros de classe média, eu deveria evitar andar sozinho. Sair de casa à noite, só se fosse realmente necessário, e sempre desconfiar de qualquer pessoa que encontrar na rua. Me tornei refém da violência.

Mas qual foi a principal mudança no ambiente que justificasse esta diferença de comportamento?

Com a disseminação de jornais e programas televisivos focados em transformar em audiência a violência e o medo, as pessoas passaram a frequentar cada vez menos os espaços que a elas pertencem por direito: as ruas.

Quem pode, mora num condomínio residencial com câmeras e seguranças; trabalha num condomínio empresarial com câmaras e seguranças; faz seu lazer em condomínios comerciais com câmeras e seguranças. Quem não pode, fica fechado dentro de casa mesmo, com cadeado no portão e porta trancada a chave, e restringe seus momentos de interação pessoal apenas aos longos trajetos de ônibus.

Sempre trago comigo uma frase que ouvi do grafiteiro e artista plástico campineiro Mirs Monstrengo, em um fórum sobre arte urbana, na Unicamp: “não existe espaço vazio. Se a gente não ocupar as ruas, outro tipo de pessoa irá ocupar”. Nada mais verdadeiro. Ao deixarmos os espaços públicos vazios, promovemos uma escalada da violência.

Uma gestão pública inteligente é aquela que fomenta a ocupação dos espaços urbanos, gerando relações interpessoais não-digitais, e promovendo impactos na cultura, na economia, na educação, e na segurança de sua população. A prática nos mostra que isolar pessoas não resolve o problema, mas, ao contrário, proporcionar encontros gera afeto e empatia.

Mas e quando o próprio poder público abandona as ruas?

 




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