Pato no Tucupi

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E chegou julho, cruzamos a linha do meio, e também os primeiros 6 meses da nova administração em Valinhos. Não vou falar sobre as outras áreas porque, ao contrário de muitos comissionados por aí, eu não sou especialista em tudo, que “entende” dos mais variadas e dispares campos, portanto, vou guardar para mim o que eu acho sobre as outras coisas e falar só de cultura. Na cultura o que vimos foi muita festa, diversão, entretenimento, e selfies, muitos selfies, nunca tivemos tantos. Não que cultura não possa também ser festa, diversão e entretenimento, mas quando fica quase que somente nisso, nos dando a impressão de ser esse o caminho que será seguido pelos próximos três anos e meio, a coisa fica muito preocupante.

Nesses primeiros 6 meses o que mais incomodou não foram os resultados alcançados, sabemos ser humanamente impossível fazer nesse tempo o que não foi feito, e deveria ter sido feito, em décadas, mas sim a total falta de indicação do que será feito nesses quatro anos, o que podemos esperar para esse período.

Na minha área, artes plásticas, as perspectivas são ainda piores, as notícias e sussurros que chegam, falam não só em sepultamento definitivo do projeto da tão esperada galeria de arte municipal, que seria montada no antigo Centro Cultural, mas que o próprio prédio deixará de ser um equipamento cultural. Eu realmente espero que não passe de mais um boato. Passados meio ano, essa administração ainda não se mostrou a que veio, não se dispuseram nem ao menos fazer uma coisa que todos os governos anteriores fizeram, que é se reunir com os artistas, se apresentar, e saber das necessidades da classe. Por diversas vezes disseram que iriam fazer a reunião, inclusive com data anunciada publicamente em um programa de rádio, mas até hoje nada. Nesse período o máximo que fizeram foi reativar o corredor do antigo Centro Cultural como “espaço expositivo”, o que está a anos-luz do que queremos, e falando por mim, eu não coloco nem um rabisco meu feito em papel de embrulho lá. Nada contra expor em espaços alternativos, o que eu não aceito é o poder público usar isso para passar a ideia que estão fazendo alguma coisa por nós.

Outra coisa, é um raciocínio quase infantil, digno de pena, achar que as minhas críticas são feitas em função de outros interesses que não as questões que envolvem a arte de Valinhos. É só perguntar para qualquer um dos secretários e diretores, ligados aos mais diversos partidos políticos, que passaram pela cultura nos últimos tempos, qual foi o meu posicionamento em relação à eles e a resposta será a mesma, que eu fui uma presença incômoda, cobrando de todos, criticando quando era pra criticar, elogiando quando tinha o que elogiar. O meu humor em relação ao atual governo nos próximos três anos e meio dependerá exclusivamente de como as coisas andarem. Não tenho problema nenhum em escrever elogios aqui, absolutamente nenhum, escreverei com o maior prazer, mas terão que ser merecidos.

Acho que os artistas da cidade têm que se posicionarem com mais contundência, mais criticamente, e não aceitar as migalhas oferecidas pelo poder público com medo de perder alguma coisa (perder o que, se não temos nada?). Uns dias atrás um grupo de artistas se reuniu informalmente para discutir ideias e o que fazer diante da realidade da cidade. Acho extraordinária a capacidade de criação dos artistas quando se reúnem para pensar. Sinto que há uma desilusão geral na classe artística quanto a perspectivas positivas oriundas do poder público, mas também sinto que há muita vontade de fazer as coisas acontecerem. Vamos ver o que vai ser dos próximos 6 meses.

E no domingo viajo para Belém, onde ficarei por duas semanas, montando uma exposição que ficará em cartaz até setembro. Uma cidade que eu sempre sonhei em conhecer, um maravilhoso museu para abrigar as minhas obras (aqui nos dão um corredor e ainda ficam bicudos quando reclamamos) e um bom Pato no Tucupi, para acalentar o estômago e pensar na vida.

Genivaldo Amorim é artista plástico e produtor cultural.




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