“Queermuseu” e a arte transformadora

0

Termino meu feriado prolongado em frente ao computador, e me inteiro da polêmica causada pela exposição ‘Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira’, no espaço Santander Cultural, em Porto Alegre.

Para quem não ouviu falar a respeito, se trata de uma exposição de mais de 270 obras de artistas brasileiros consagrados, e outros nem tanto, abrangendo um período de meados do século XX até hoje. Contava inclusive com obras do quase valinhense Flávio de Carvalho, além de Portinari, Ligia Clark, Leonilson, entre outros.

O objetivo da mostra era explorar nuances da diversidade social e seus reflexos na arte e na cultura. Algumas obras, no entanto, causaram polêmica, um movimento de boicote ao banco, e manifestações, principalmente por parte da comunidade cristã, o que levou a instituição a encerrar a exposição com um mês de antecedência, e emitir uma nota se eximindo da responsabilidade pela exposição e se desculpando pela ofensa.

Busquei imagens da exposição, e acho que vale destacar que ela contava com obras muito críticas e reflexivas sobre diversos aspectos da vida contemporânea, o que gerou, na sua abertura, uma série de matérias e críticas especializadas positivas sobre seu conteúdo e qualidade.

A forma como o público lida com a arte, no entanto , é muito diferente da forma como especialistas o fazem. A arte, normalmente, não é pensada e criada para o “público médio”. A criação artística vem carregada de um arcabouço cultural do artista; de suas reflexões, seus debates, suas relações; criando assim um distanciamento entre ele e o público comum, o que gera um aspecto elitista nesta relação artista-público. Só percebe os meandros da crítica contida na obra aquele que tem conhecimento prévio, ou que esteja disposto a se aprofundar nos debates a respeito do tema.

Acredito que na maior parte das vezes (exceções existem), quando um artista cria uma obra com um tema polêmico, sua intenção é que aquele desconforto provoque reflexão. Muito diferente das acusações de fazerem apologia a práticas criminosas, como estão sendo acusados os artistas da referida exposição.

Usar imagens religiosas em exposições deste porte quase invariavelmente causa protestos das classes conservadoras. Da mesma forma, retratar tabus nas artes é uma prática que normalmente afasta e gera repúdio do público.

Acredito, no entanto, que a arte possui este poder transformador dos pensamentos e relações, e ao acreditar nisto, defendo que a polêmica e movimentos contrários à proposta, com manifestações e boicotes devam ser encarados como partes naturais deste processo de transformação social, e que ceder a pressão de uma parcela da sociedade e cancelar uma exposição com um potencial deste significa aceitar o conservadorismo.

Quando a relação arte-público passa a ser encarada da mesma forma como a relação empresa-cliente, a arte perde um pouco deste potencial transformador, e este é um processo pelo qual as artes vêm passando desde a disseminação das Leis de Incentivo à Cultura como principal forma de financiamento da produção artística.

A criatividade não deve se encaixar nos padrões sociais, mas criar novas formas de enxergar estes padrões.




Deixe um comentário

Por favor, digite seu comentário.
Por favor, digite seu nome