Rabo de Foguete

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Amanhece a primeira segunda-feria do novo ano. O sol na sua timidez não deu as caras com seu sorrisão. Do quintal chegam os primeiros ruídos, prenúncio da vida, galos, galinhas, patos e a algazarra organizada pelos marrecos. No topo de um frondoso jambeiro, que sombreia a casa, maritacas e saguis dividem a fartura dos frutos. Caxinguelês retomam seu trabalho na busca do sustento da prole. A luta pela sobrevivência não para.

A festa ainda continua nessa manhã. Vizinhos entorpecidos festejam com o costumeiro modão e o ar da cidade valinhense exala um odor, mistura de esperança e enxofre. Numa caminhada pelo quintal, encontro passarinhos caídos dos ninhos e sem vida.

Ao chegarmos próximos do ano que sucede o qual estamos acreditamos que tudo aquilo que estiver antes, não mais interferirá em nossas vidas. Tocam buzinas, sinos, tambores e os odiosos estampidos ecoam pelos céus do país. Valinhos entra no clima dessa guerra inglória com rojões e morteiros. O historiador Leandro Karnal, afirma que isso é uma “pequena barbárie” que “perturba animais, assusta crianças, queima alguns humanos e incomoda doentes”. O colorido ilumina o céu desse pequeno vale, e grande, na sua insensatez.

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Segunda-feira, 9h da manhã e o Zimba agora dorme um sono profundo. Em outros dias o bicho já estaria todo serelepe, correndo e fazendo festa com seu cobertor arrastado pelo quintal. Ele nada sabe sobre o novo, velho, esperança. Nem mesmo sabe que é um cachorro. Mas seu instinto o coloca dentro do medo por tantos estampidos que os humanos culturais insistem mandar pelos ares na noite anterior. Nosso céu de mais estrelas vestiu-se de branco para a guerra.

Legisladores preocupados com a questão protocolaram projetos de lei na eminência de coibirem a queima de fogos. No plano legal, é preciso que entendam que apesar de desejarem um basta nessa aberração que faz sofrer animais, crianças, idosos e doentes, entre outros, o interesse local não está acima das leis que regem o estado e o país. Então como resolver esse rabo de foguete?

Imagino a educação, como a solução em longo prazo. Há alguns anos as escolas brasileiras incluíram nos seus currículos a discussão sobre o meio ambiente. Ainda não estamos imunes das transgressões cometidas contra nossas matas, nascentes, serras e a qualidade da vida presente e das gerações futuras. Porém, ao longo dos anos a escola foi possibilitando uma nova consciência. E é assim que acredito que deveremos proceder pra diminuirmos e quiçá, acabarmos com esses foguetórios. Programas desenvolvidos nas escolas, debates no legislativo, envolvimento das Ongs da cidade.

Enquanto isso não acontece, feliz ano velho para todos nós.
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Gérsio Pelegatti é professor da História não aposentada.

 




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