Por Luís Fernando Crespo
Ei, psiu! Já percebeu quanto somos diferentes?
Você e eu… você e seus familiares… você e seus amigos… Você e qualquer pessoa: todos somos diferentes em muitos aspectos. Não há duas pessoas que sejam, realmente, iguais. A não ser segundo a lei, como cidadãos, pessoas que partilham de uma mesma coletividade organizada para dar conta da vida social. Significa que podemos ser totalmente diferentes e, ainda assim, na sociedade, todos temos de ser respeitados, com os mesmos direitos e deveres; podemos participar de todos os âmbitos sociais sem qualquer tipo de discriminação. Mas a coisa não se dá bem deste modo…
Ao olharmos para qualquer lado, vemos muros sendo construídos, ao invés de pontes. Vemos medo, ao invés de companheirismo e fraternidade. As diferenças que citei no início do texto passaram a ser usadas como marcadores da separação: classe, raça, gênero e orientação sexual, idade, nacionalidade, religião. Tudo passou a ser usado, de alguma maneira, para estabelecer uma divisão entre “os que estão certos” em suas ideias e “os que estão errados”. A divisão gera medo social, e os vizinhos passam a se ver como perigo um ao outro. São várias linhas imaginárias que servem para classificar e delimitar espaços. Mas, lembremos o Art. 5º da Constituição Federal: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza…” Porém, vemos que há diferença entre o que é a lei e o modo como ela é utilizada.
Em 1969, ocorreu a chamada Revolta de Stonewall, um movimento iniciado contra a repressão policial em um bar, nos Estados Unidos. O evento foi significativo e marcou o dia 28 de junho como dia do orgulho LGBT+ e da luta contra a homofobia. Claro que não se iniciava ali, já existindo outros movimentos ao redor do mundo. Mas Stonewall ganhou visibilidade.
As pessoas LGBT+ estão vivendo nas cidades e contribuindo com o desenvolvimento social, como qualquer outra pessoa. São crianças, jovens e adultos que estão na sua família, no seu trabalho e na sua igreja. São pessoas idosas também – inclusive, o tema da Parada LGBT+ de São Paulo (que será tema em Valinhos também, em setembro) é “Envelhecer LGBT+; memória, resistência e futuro”. É um tema de suma importância, pois há até não muito tempo, morria-se jovem, ou era preciso se esconder até a velhice.
Pessoas LGBT+ são pessoas com anseios, desejos, medos e aflições – como todas as outras pessoas. São cidadãs! São cidadãs em Valinhos! São pessoas da alegria, pessoas do arco-íris, da vida e da diversidade. Mesmo assim, continuam sofrendo violências múltiplas, declaradas ou veladas. Você sabia que uma criança LGBT+ cresce em diferentes tipos de isolamento, tendo de provar, a cada dia, que elas são capazes? Você sabia que muitos adolescentes e jovens são expulsos de casa por conta, simplesmente, de serem quem são? Você sabia que o Brasil ainda é o país com maior número de assassinatos de pessoas trans? Não é possível fechar os olhos; não há cidadão que seja, realmente, “de bem” se não olhar para isso e perceber que há algo muito errado – valores de vida não podem ser distorcidos em benefício de grupos.
Uma sociedade com mais igualdade é uma necessidade. Pergunto-me: por que há quem não apoia a igualdade de direitos. Se há alguém que se incomoda com as pessoas LGBT+, é porque a sociedade não fez bem o seu papel, pois o processo educativo não foi bem realizado, já que é na infância que aprendemos a conviver com os diferentes. Se nenhuma criança é preconceituosa por natureza, como surgem os adultos homofóbicos, por exemplo?
E há quem diga que se trata de valores, ética e moral. Então, como professor de filosofia, devo dizer que falta estudo, falta conhecimento, desde o nível mais raso do senso comum, até o âmbito do poder público. Quem é que se beneficia com tanta divisão e exclusão? Há sempre uma lógica de interesse-poder por detrás de tudo isso. Por exemplo, grupos de diferentes ideologias religiosas são levados a eleger representantes que defenderão suas ideias; por sua vez, estes defenderão tais ideias por desejarem reeleição… e assim por diante. Mas um representante eleito não está para defender uma ou outra ideologia – ele deve ser representante do povo da cidade. Porém, enquanto houver quem defenda a exclusão, será necessário quem faça a contraposição. As políticas têm de ser públicas – realmente, públicas! Devem olhar para as necessidades de todos os grupos sociais. Pessoas LGBT+ querem contribuir com a sociedade. Pessoas LGBT+ defendem a família. Pessoas LGBT+ defendem a infância contra o abuso. Pessoas LGBT+ são, exatamente, pessoas, em suas singularidades.
É estranho, mas, por que a sociedade evolui “com passos de formiga e sem vontade”? Eu estar aqui escrevendo estas palavras é uma explicação… Ao invés de avançar, temos de voltar, em pleno 2025, para defender o óbvio: a igualdade e a justiça, que, como consequência, terão, exatamente, a vida em abundância. A vida é para todas as pessoas! Feliz Dia do Orgulho LGBT+!

Luís Fernando Crespo, 45, filósofo e psicanalista, é presidente da Associação LGBT+ de Valinhos.


