Um levantamento mostra que os novos gastos da Prefeitura e da Câmara cobririam mais de 1,1 milhão de passagens de ônibus — por que não investir em tarifa zero?
A recente redução da tarifa de ônibus em Valinhos, de R$ 4,70 para R$ 3,70, somada à instituição da tarifa zero aos domingos e feriados, representa um avanço concreto na democratização do transporte público. A medida tem potencial para aliviar o orçamento de milhares de trabalhadores e trabalhadoras, estimular o comércio local, reduzir o uso de carros e incentivar um modelo de mobilidade mais sustentável.
Contudo, a pergunta que precisa ser feita agora é: por que parar por aqui?
A tarifa zero plena – ou seja, gratuita todos os dias – é perfeitamente possível. O que falta não é dinheiro, mas vontade política e prioridades claras.
Para ilustrar, vejamos um levantamento simples: recentemente, a Câmara Municipal de Valinhos aprovou o aumento do número de vereadores, de 17 para 19. Cada parlamentar tem direito a 3 assessores, o que amplia significativamente os custos do Legislativo. Além disso, a Prefeitura aprovou a nomeação de cargos de secretários adjuntos. Isto significa que, como atualmente são 20 secretarias, o quadro pode integrar mais 20 novos comissionados.
Somando os salários e encargos desses cargos, o gasto anual chegaria a impressionantes R$ 4.150.752,96. Agora vejamos o que esse valor significa quando traduzido em passagens de ônibus:
Com a tarifa atual de R$ 3,70, esse montante seria suficiente para custear 1.121.825 passagens por ano. Isso mesmo: mais de um milhão de viagens. Quantas pessoas poderiam ir ao trabalho, à escola, ao médico ou simplesmente circular pela cidade sem colocar a mão no bolso?
Enquanto isso, os argumentos contrários à tarifa zero costumam vir acompanhados de frases feitas como “não existe almoço grátis” ou “quem vai pagar a conta?”. A resposta é simples: todos nós já pagamos essa conta, com os nossos impostos. A diferença está em como esses recursos são utilizados.
Manter estruturas inchadas, com cargos comissionados e assessorias que nem sempre atendem ao interesse público, é uma escolha. Assim como seria uma escolha aplicar esse mesmo recurso em um sistema de transporte público gratuito, universal e eficiente.
A tarifa zero não é um sonho utópico. Ela já existe em mais de 100 cidades brasileiras, como Maricá (RJ), Vargem Grande Paulista (SP), Caucaia (CE) e Volta Redonda (RJ), só para citar algumas. São cidades que compreenderam que mobilidade urbana é um direito, não um privilégio.
Portanto, ao invés de aceitarmos os aumentos de gasto com a máquina pública como algo natural, deveríamos perguntar: e se o dinheiro fosse investido diretamente na população? E se priorizássemos a locomoção de quem mais precisa?
Tarifa zero é uma política pública transformadora, com impactos diretos na vida das pessoas. E ela cabe no orçamento – basta querer.


