Por Igor Lages de Carvalho
“No começo eu pensava que lutava para salvar seringueiros, depois pensei que lutava
para salvar a Amazônia. Agora percebo que estou lutando é pela humanidade.”
— Chico Mendes
O Brasil, dono de uma das maiores biodiversidades do mundo, está diante de um abismo. O
Projeto de Lei 2159/21 — apelidado de “PL da Devastação” — pode abrir as porteiras para
um processo acelerado de destruição ambiental.
Com sua aprovação, o que já é frágil corre o risco de desaparecer: rios, florestas, animais, qualidade do ar e da água. Estamos ameaçando diretamente a teia da vida que nos sustenta.
Mas o que está por trás desse projeto não é apenas a burocracia. É a forma como vemos o
mundo. Há séculos, a sociedade se construiu com a ilusão de que somos donos da Terra.
Como se os rios, as árvores, os animais e até as montanhas estivessem aqui apenas para
servir ao nosso conforto e ao crescimento econômico desenfreado. O PL 2159/21 nada
mais é do que a tradução legal desse pensamento ultrapassado.
O fio da vida está sendo cortado
Ao facilitar e, em muitos casos, eliminar a exigência de licenciamento ambiental para obras
e empreendimentos, esse projeto entrega um cheque em branco à destruição. Grandes
empreendimentos de mineração, agronegócio, rodovias ou barragens poderão seguir sem
qualquer análise séria dos impactos que causam.
A consequência?
Mais desmatamento. Mais rios contaminados. Mais espécies extintas. Mais doenças
respiratórias. Mais desigualdade.
A Mata Atlântica, por exemplo, já perdeu quase 90% de sua cobertura original. E mesmo
assim, segue sendo atacada. Esse projeto pode ser a sentença final para muitos dos seus
últimos fragmentos.
Ecoalfabetizar é resistir
Diante de tamanha ameaça, precisamos fazer mais do que protestar. Precisamos educar. E
não qualquer educação — mas uma educação que reconecte as pessoas à natureza, que
resgate o senso de pertencimento à Terra. Precisamos ecoalfabetizar.
Ecoalfabetizar é ensinar que somos parte da natureza, não seus donos. Que tudo está
interligado. Que nenhuma espécie — nem mesmo a humana — sobrevive sozinha. É
mostrar que quando poluímos um rio, não matamos apenas peixes: envenenamos a cadeia
alimentar, comprometemos plantações, afetamos a economia, e colocamos em risco a
saúde de famílias inteiras.
Esse é o pensamento sistêmico: tudo está conectado. Cada árvore derrubada tem um
impacto que vai muito além de sua sombra.
A infância precisa da natureza
As crianças precisam brincar, explorar, tocar a terra, se encantar com um passarinho ou
uma flor. Isso não é luxo — é saúde. Especialistas já identificam o que chamam de
Transtorno de Déficit de Natureza, causado pela ausência de contato com o ambiente natural. Ele está ligado ao aumento da obesidade infantil, ansiedade, miopia, déficit de
atenção e até queda na imunidade.
Estudos mostram que:
● 20 minutos em um parque reduzem sintomas de hiperatividade mais do que
medicamentos como a Ritalina;
● bairros arborizados registram menos violência;
● o simples fato de ter uma janela com vista para árvores acelera a recuperação de
pacientes em hospitais.
Essas descobertas deveriam estar na pauta de qualquer cidade que deseje o bem-estar da
população.
E ainda há esperança
Sim, o PL da Devastação é grave. Mas não podemos perder a esperança. Como dizia Ailton
Krenak, líder indígena, pensador e escritor brasileiro: “Enquanto a Terra estiver viva, ainda
temos chance de aprender com ela.”
Podemos e devemos construir um outro jeito de viver. Um modelo que respeite os ritmos da
natureza, que aprenda com os povos originários, que abrace o conhecimento científico sem
abandonar o encantamento pela vida.
Esse novo caminho começa nas escolas, nos bairros, nos quintais e nos pequenos gestos.
Começa quando deixamos uma criança se sujar de terra. Quando escolhemos uma praça
ao invés de um shopping. Quando olhamos uma árvore não como obstáculo, mas como
irmã.
Conclusão
O PL 2159/21 não é apenas uma ameaça legal: é um retrato de como ainda insistimos em
uma visão falida de progresso. Um progresso que desmata, polui, lucra com a morte e
empobrece o futuro. Mas há outras formas de existir. Formas que valorizam a vida, a
diversidade, a interdependência.
Precisamos agir. Precisamos ensinar. Precisamos ecoalfabetizar.
Ainda há tempo, participe de atos e ações que defendam o meio ambiente, ocupe as ruas,
faça dessa pauta ser a mais importante de nossos congressistas (pois ela é).
Antes que a natureza se cale — e com ela, todas as possibilidades de um amanhã.

Igor Lages de Carvalhp é Educador Socioambiental – Coletivo Educador Ambiental
Unicamp


