Café e escravidão em Valinhos: memórias selecionadas e memórias silenciadas
O novo artigo do historiador e professor Adauto Damasio provoca reflexões sobre as memórias selecionadas e os silenciamentos em torno da formação de Valinhos. Enquanto a memória oficial destaca a beleza dos casarões dos barões do café e a epopeia dos imigrantes europeus, pouco se fala sobre o papel decisivo dos africanos escravizados que ergueram a riqueza da região.
Adauto Damasio*
A memória pública em Valinhos reconhece a existência das fazendas de café no território do antigo bairro de Campinas entre o final do século XIX e início do século XX. Ainda assim, busca salientar de forma mais enfática a beleza dos poucos casarões dos barões do café que restaram, elevar os antigos proprietários rurais à condição de cidadãos beneméritos, edificar a memória dos imigrantes europeus que atravessaram o oceano Atlântico de forma heroica para trabalhar nos cafezais e, evidentemente, silenciar sobre a existência de trabalhadores africanos escravizados.
Certamente, há um dado de sofrimento psíquico para explicar o silenciamento da escravidão e dos africanos escravizados na memória pública no território onde hoje está Valinhos: uma certa vergonha de suas elites e agregados por terem consciência de que as principais riquezas do território tiveram origem no trabalho de pretos africanos durante a vigência do regime de trabalho escravista.
A própria concepção do que seja história para essas elites e seus agregados – a história oficial dos grandes nomes, dos grandes fundadores, dos grandes marcos, dos pioneiros e da preocupação com as datações – reforça esse sentimento. Afinal, muitos de seus eméritos “fundadores” compravam e vendiam seres humanos, acumulando riquezas por meio da exploração do trabalho compulsório de homens, mulheres e crianças.

As elites do município e seus agregados também nutrem certa desonra psíquica por saberem que a riqueza empregada na criação da Companhia Paulista de Trens e a consequente construção da Estação Ferroviária de Valinhos foi gerada pelo trabalho de africanos escravizados, visto que a presença de imigrantes europeus em Valinhos antes de 1872 foi insignificante ou nula.
Essa memória pública, construída e mantida por elites e seus agregados que dominaram o poder político do território no século XX, também silencia sobre a explicação causal lógica, evidente e óbvia a respeito da elevação do território à condição de distrito de Campinas, em 1896. Tal elevação ocorreu em função da produção de riqueza acumulada ao longo dos séculos XVIII e XIX por meio da produção de açúcar e de café com uso intensivo de mão de obra de escravizados – imigrantes trazidos compulsoriamente da África ou nascidos no Brasil, em especial após 1850, com o tráfico interprovincial.
Esse sentimento de vergonha vem acompanhado de um elemento central do pensamento pseudocientífico reinante a partir de meados do século XIX e do qual a cultura brasileira mantém fundamentos em suas práticas até o século XXI: o darwinismo social e o consequente racismo, justificativa ideológica submersa nas mentalidades das elites e de seus agregados.
Também precisamos ressaltar o óbvio: silenciar sobre os conflitos e grupos sociais subalternizados do passado no território e aderir às noções eugênicas do pensamento europeu são partes do arsenal de estratégias de exercício do poder de classe sobre outras classes sociais. Afinal, essas elites e seus agregados, até hoje, precisam de trabalhadores e trabalhadoras pobres, pardos, pardas, pretos e pretas, para limpar seus banheiros, aparar seus gramados, construir casas em condomínios fechados pagando a menor remuneração possível e entregar pizzas quentes à porta de sua casa.
Essas mesmas elites e seus agregados formam os grupos sociais que buscam, hoje, desmontar o primitivo Estado de Bem-Estar Social criado no Brasil a partir dos anos 1990. Para eles, o desemprego, o analfabetismo e a pobreza geram riqueza; nada muito diferente do que ocorria nos canaviais e engenhos do brigadeiro Luís Antônio de Souza Queirós ou nos cafezais de Antônio Manoel Teixeira em Valinhos no século XIX.
Trata-se das mesmas elites e agregados que buscam impor projetos autoritários e/ou fascistas para o Brasil do século XXI. Desse ponto de vista, Valinhos é apenas um pequeno exemplo da mentalidade das elites e agregados do Brasil, em especial no estado de São Paulo. As elites escravistas e seus agregados aprenderam a moer seres humanos para gerar riqueza, em Valinhos e no Brasil.

- Adauto Damasio é Graduado e Mestre em História pela Unicamp, Pedagogo pela Uninter. Professor das redes públicas municipais de Valinhos e Campinas e do Colégio Alethus. Valinhense desde 1964.

