Por Adauto Damasio*
A palavra “liberdade” está na moda. A profusão de discursos defendendo a liberdade chega ao ponto de ser objeto de preocupação de lideranças políticas em municípios provincianos como Valinhos. Mas não se está a falar sobre aquela liberdade conquistada com suor, luta e sangue por gerações que enfrentaram ditaduras, mas a liberdade de espalhar mentira nas redes sociais, ofender minorias em nome da “opinião” e produzir discursos racistas em nome de religiões. É esse o discurso de uma extrema-direita que se recusa a obedecer às leis e sonha em corroer os pilares do establishment democrático. Para piorar, conta com o apoio discreto, mas lucrativo, das big techs — Meta, X/Twitter, Google — que, sob a máscara da neutralidade, fazem fortuna com o ódio e a desinformação que mantêm os usuários grudados nas telas.
Jean-Jacques Rousseau, lá no século XVIII, já tinha um recado para essas pessoas: o homem nasce livre, mas sua liberdade só se realiza de verdade quando aceita viver sob as leis da vontade geral. Isso significa que não existe liberdade fora do contrato social. Tentar impor privilégios como se fossem direitos universais é apenas disfarçar egoísmo de liberdade. Quando os “defensores da pátria” gritam contra qualquer limite, não estão reivindicando liberdade, mas sim a licença de continuar mandando e desmandando sem prestar contas a ninguém. Rousseau acharia tudo isso uma caricatura grotesca da liberdade.
Immanuel Kant também não teria muita paciência para os discursos de “liberdade total” que circulam por aí. Para ele, ser livre não é agir de acordo com os próprios caprichos, mas seguir princípios que poderiam ser universalizados. Em outras palavras: se a sua liberdade depende de humilhar, excluir ou mentir para o outro, ela não passa de tirania disfarçada. Kant chamaria de imoral essa suposta autonomia que despreza o respeito ao próximo. O curioso é que, ao se autoproclamarem os grandes paladinos da liberdade, certos políticos revelam-se apenas preguiçosos morais, incapazes de aceitar que a convivência exige responsabilidade.
O caso brasileiro torna essa discussão ainda mais urgente. Somos uma democracia jovem, inaugurada de fato em 1988. Foi só aí que mulheres, pessoas negras, povos originários, população LGTBQi+ e tantos outros grupos passaram a ter, no papel, os mesmos direitos dos demais. O problema é que parte da população não foi socializada nesse regime de direitos e encara as conquistas recentes como ameaças à sua “liberdade”. No fundo, trata-se da resistência em ceder privilégios historicamente garantidos por uma ordem excludente. É o choque entre a liberdade como bem comum e a liberdade como feudo privado marcado por privilégios.
Esse choque geracional é explorado com cinismo por políticos oportunistas. Eles sabem que basta repetir slogans simplistas, “liberdade acima de tudo”, “ninguém vai me calar”, para conquistar o eleitorado pouco ilustrado, acostumado a confundir grito com argumento. Em vez de educar para a cidadania, preferem inflamar ressentimentos. Rousseau já explicava que, sem contrato social, a liberdade degenera em opressão. Mas, claro, estudar Rousseau dá trabalho; é muito mais fácil postar um vídeo de 30 segundos no X/Twitter com frases de efeito e ganhar milhões de visualizações.
E quem garante o palco para essa ópera bufa? As empresas de tecnologia. Meta, Google, X/Twitter fingem defender a liberdade de expressão, mas na prática defendem o próprio caixa registrador. Quanto mais escândalo, mais cliques; quanto mais mentira, mais engajamento; quanto mais ódio, mais anúncios vendidos. Qualquer tentativa de regulação vira “censura”, não porque ameacem a democracia, mas porque ameaçam os lucros. Assim, as big techs tornaram-se as maiores parceiras da política autoritária, enquanto vendem ao mundo a imagem de guardiãs da liberdade digital.
É uma contradição grotesca. Quem diz defender a liberdade, na verdade, mina suas próprias bases. Rousseau já alertava: sem vontade geral, não há liberdade. Kant reforçava: sem moralidade, não há autonomia. Mas aqui preferimos acreditar no político que promete liberdade para espalhar fake news ou no influenciador que grita contra a vacina. Essa inversão perversa transforma a liberdade em mercadoria barata e cada like, cada compartilhamento, é mais um tijolo retirado do edifício democrático.
A liberdade é, sim, um desejo humano inegociável. Mas é também uma construção social, moral e política que exige limites, responsabilidade e justiça. No Brasil, precisamos enfrentá-la como tema de sobrevivência democrática, sem ingenuidade diante dos discursos que a usam como máscara para autoritarismo. A verdadeira liberdade não está no ódio viralizado nem no lucro das big techs, mas no reconhecimento dos direitos de todos. E talvez o primeiro passo seja dizer aquilo que parece óbvio: quem grita por liberdade sem respeitar o outro não quer ser livre, quer apenas ser dono da senzala.


