Por Adauto Damasio*
A escravidão, por si, é uma forma abjeta de violência. Ademais, a violência física contra pessoas escravizadas no Brasil, desde o início da colonização, era uma parte essencial do sistema escravista, sustentando-se na coerção e no medo. Castigos como o tronco, o açoite e o pelourinho não apenas puniam, mas também simbolizavam o domínio absoluto dos senhores sobre os corpos e as vidas dos cativos. Em regiões de economia açucareira e cafeeira, como Valinhos, esses mecanismos de controle eram frequentes e amplamente documentados.
Segundo Sidney Chalhoub, a violência cotidiana fazia parte da “pedagogia da obediência”, em que a punição pública e exemplar servia para reafirmar a hierarquia social e racial. Em Valinhos, a brutalidade era naturalizada no cotidiano das fazendas. Assim, o tronco e o chicote não foram apenas instrumentos de tortura, mas pilares de um sistema que pretendia moldar corpos e silenciar resistências, deixando marcas profundas na formação social da região.
Um exemplo significativo dessa forma de domínio sobre os escravizados em Valinhos é o de um tio do segundo presidente civil da República, Manoel Ferraz de Campos Salles. Estanislau de Campos Salles, conhecido como Nhô Lau, proprietário da fazenda Macuco. Ele participou pessoalmente de um episódio de violência contra escravos na plataforma da Estação Ferroviária de Valinhos, em 1887.
Em abril de 1887, um trem saiu de Campinas em direção a São Paulo, com parada na Estação Ferroviária de Valinhos. Nessa estação encontrava-se um senhor idoso, com “trajes de fazendeiro, esbaforido, olhar inquisidor”. Um cavalo suado estava amarrado a uma cerca próxima, “cansado de uma corrida que deveria ter sido vertiginosa”. Ao chegar o trem, o fazendeiro, com um sorriso de satisfação, abordou um preto calçado e bem vestido que estava no vagão de 2ª classe. Ele saiu do vagão cabisbaixo. Desabotoando o paletó, o fazendeiro chamou seus dois capangas, segurando o referido preto. Deu-lhe “safanões valentes” e prendeu seus braços por trás das costas. Olhando triunfalmente para os lados, sacou de uma corda de linho fina e amarrou seus braços. Seus capangas o levaram até os cavalos e, daí, para o tronco (A Redempção, 17 de abril de 1887, p. 3**).
O autor que escreve a notícia para o periódico, de forma sarcástica, afirma que a cena, apesar de ser habitual, tem “importância capital pelo nome do herói e sua ilustre família”: Estanislau de Campos Salles, pai de Antonio de Pádua Salles, advogado e adepto do pensamento republicano. Ao final, o autor do conteúdo jornalístico sugere que Nhô Lau, seu apelido, apresente tese sobre a “superioridade da corda de linho sobre a de embira, aplicada à amarração de pretos fugidos”.
O episódio narrado pelo jornal A Redempção em 1887 evidencia a violência física aplicada a pessoas escravizadas ou fugitivas em Valinhos, refletindo práticas comuns nas fazendas paulistas do final do período escravista. A descrição do senhor idoso, seus capangas e o uso do tronco mostra que o castigo era performativo: uma demonstração pública de poder senhorial e de reafirmação da hierarquia racial e social. Também evidencia claramente que espancamentos contra escravos eram habituais.
A ironia do jornal, destacando o prestígio do executor, naturaliza o ato e revela a legitimação social da brutalidade em Valinhos. A cena do “safanão valente” e da corda de linho simboliza a materialização do controle sobre o corpo do escravizado. Historicamente, casos assim não eram isolados, mas parte de um repertório institucionalizado de violência que estruturava a vida rural. O episódio confirma como punições físicas funcionavam tanto como técnica de dominação quanto como espetáculo social de reafirmação de poder.
Também é possível compreender a dimensão subjetiva do ato: a violência atua como mecanismo de afirmação identitária para o senhor, transformando a dor do outro em uma confirmação de autoridade. O castigo público funciona como um ritual que reforça a hierarquia e controle, reproduzindo compulsivamente relações de poder. Ao mesmo tempo, a vítima sofre marcas corporais e psíquicas que atravessam experiências coletivas, mostrando como a dor e o medo se internalizam e se repetem socialmente. O episódio não é só um ato isolado, mas parte de um sistema de coerção que molda corpos e subjetividades, naturalizando a obediência e a submissão. Essa lógica de dominação inscreve-se no imaginário social.
Por outro lado, em 1887, o regime escravista brasileiro encontrava-se em acelerado processo de desagregação, com a abolição sendo uma questão de tempo. A atitude do fazendeiro de Valinhos, portanto, não era apenas a de um senhor disciplinando sua propriedade, mas a de um indivíduo cujo mundo social e econômico, baseado na posse de pessoas, desmoronava. A fuga dos cativos naquele momento específico era a materialização de seu pior medo: o fim iminente de uma ordem que estruturava sua identidade e poder. A brutalidade, assim, era uma tentativa desesperada de negar a realidade incontornável, afirmando de forma performática e violenta um controle que já lhe escapava pelos dedos.
A ansiedade do senhor, portanto, era também profundamente narcísica, atingindo o cerne de sua autoimagem. Cada escravo fugido representava uma falha em sua autoridade, uma humilhação pública que feria seu ego grandioso. O olhar do fazendeiro sobre os fugitivos não via seres humanos, mas objetos que o desafiavam, objetos de seu poder que insistiam em escapar.
Trata-se da evidência de um sentimento de ressentimento narcisista, presente em parte significativa da sociedade brasileira até os dias de hoje. Para utilizar uma frase famosa: “os mortos continuam a governar os vivos”. Outra: “O Brasil tem um longo passado pela frente”.
Devemos lembrar também que essas elites proprietárias de terras e de escravos eram cristãs convictas e sinceras, religiosas extremadas que frequentavam a Igreja Católica e participavam de importantes ações de filantropia. Em 1871, Estanislau Campos Salles contribuiu com recursos financeiros para auxiliar as vítimas da peste na cidade de Buenos Aires. Ele também mandou celebrar missa de sétimo dia em homenagem à alma de Francisco Antônio de Salles em 5 de maio de 1871 (Gazeta de Campinas, 30 de abril de 1871, p. 2-3). Como cristão genuíno, contribuiu para a construção da Matriz Nova (Gazeta de Campinas, 31 de outubro de 1872, p. 3). Certamente, frequentava as missas com regularidade e sempre orava antes de dormir.
Com grande “sentimento generoso”, o fazendeiro Estanislau Campos Salles contribuiu com um conto de réis para a construção do Hospital da Caridade, que estava sendo erigido pelo reverendíssimo padre J. J. Vieira em Campinas (Gazeta de Campinas, 24 de dezembro de 1871, p. 2). Promoveu o sepultamento de seu escravo Jorge com os devidos ritos religiosos no dia 11 de novembro de 1873 (Gazeta de Campinas, 20 de novembro de 1873, p. 2), além da escrava Izabel (Gazeta de Campinas, 30 de maio de 1875, p. 2). Certamente, muitos outros escravos foram sepultados pelo “generoso” fazendeiro. Certamente, Nhô Lau auxiliou muitas outras iniciativas filantrópicas, talvez inclusive dentro de sua fazenda Macuco, em Valinhos.
A benemerência e a filantropia, com os mais elevados sinais de hipocrisia, sempre estiveram presentes nas ações da elite rural proprietária de terras e escravos em Valinhos. Cândido Ferreira da Silva Camargo, proprietário da fazenda Santa Tereza da Serra a partir de 3 de dezembro de 1874, e de dezenas de escravos em Valinhos, foi herdeiro de fortunas acumuladas pela família em função da exploração do trabalho de escravos, exemplificados pelos 126 escravos de seu avô. Dr. Candinho, carinhoso apelido do proprietário escravista, foi um grande filantropo e benemérito, fundador do Sanatório Cândido Ferreira, em Sousas, entre tantas outras “boas obras”.
Ademais, outro registro pode nos auxiliar a entender as ações dos proprietários da fazenda Macuco e da fazenda Santa Tereza da Serra, em Valinhos.
Na mesma edição desse mesmo jornal, há o relato de torturas aviltantes em Campinas, mesmo às vésperas da abolição, com uso de “bacalhau e ferros”. O bacalhau dizia respeito a chicoteamentos agressivos e à aplicação de sal nas costas dos escravos para aumentar a dor. Nessa fazenda de Campinas, além disso, o feitor manejava “o bacalhau quase que cotidianamente e, para regalo desse administrador e sua mãe, existem em ferros quatro pobres escravizados”. Cândido “tem um gancho no pescoço” e “ferro nos pés”, Samuel, gancho no pescoço, e Luís, ferro nos pés. O autor anuncia toda a hipocrisia das elites escravistas: “não tardará muito para que os jornais de Campinas e Itu, noticiando a morte dessa tal D. Francisca de Camargo, afirmem ter sido ela uma senhora virtuosa que tinha escravos, mas esses viviam como forros” (A Redempção, 17 de abril de 1887, p. 3).
As ações filantrópicas das elites escravistas revelam uma profunda hipocrisia: enquanto se proclamavam devotos e praticantes da caridade, elas mantinham e lucravam com a exploração de corpos escravizados. A benemerência sempre foi uma “fachada moral”, mascarando a violência cotidiana e reforçando hierarquias. As religiões sempre foram instrumentalizadas para legitimar privilégios e consolidar prestígio social. Assim, a filantropia nunca foi um compromisso ético genuíno.


