No Dia da Consciência Negra, o Pé de Figo publica uma obra conceitual que pretende provocar uma das reflexões mais urgentes do nosso tempo: a história oficial não é neutra, ela seleciona, e ao selecionar, ela também apaga.
O Monumento aos Imigrantes, instalado em uma das principais avenidas de Valinhos, celebra a contribuição europeia para o desenvolvimento da cidade, mas omite um capítulo decisivo dessa mesma história: o trabalho escravizado de homens, mulheres e crianças negras, cuja força foi base econômica e social para que a própria imigração posterior pudesse existir. O problema não é homenagear os imigrantes. O problema é homenagear apenas eles, mantendo invisível quem sustentou a estrutura que tornou esse progresso possível.
A história do interior paulista não se construiu de forma linear, romântica ou pacífica. Antes dos imigrantes europeus chegarem às lavouras de café, o território que hoje é Valinhos sustentou sua economia com base no trabalho escravizado de africanos, que não vieram por escolha, foram trazidos à força, comercializados como mercadoria e explorados como recurso. Esse período, que moldou a paisagem agrária, acumulou capital e produziu riqueza inicial para as elites locais, raramente aparece representado de forma pública, material e permanente no espaço urbano. Monumentos contam histórias, mas também escondem outras.
A discussão não é estética, nem ideológica. É civilizatória. Quando o espaço público homenageia apenas parte do passado, cria-se uma falsa versão de origem e reforça hierarquias históricas que persistem até hoje. A escolha do que vira monumento é sempre uma escolha política. Revisitar, ampliar ou complementar essas narrativas passa a ser, portanto, uma responsabilidade do presente. Não se trata de apagar, derrubar ou destruir símbolos existentes. Trata-se de completar o que foi contado pela metade. De reconhecer que a mesma Valinhos que celebra imigrantes precisa assumir também o legado violento e estrutural da escravidão.
Em todo o tempo e não apenas no Dia da Consciência Negra, refletir sobre memória é reconhecer que não existe justiça histórica sem memória completa. O monumento oficial narra a história dos que chegaram. Falta ainda reconhecer a história dos que foram arrancados de suas terras para construir a base econômica que permitiu que outros chegassem depois. Corrigir essa lacuna não é um gesto simbólico apenas, é um compromisso com a verdade. Porque uma cidade que escolhe ver toda a sua história é uma cidade mais capaz de construir um futuro menos desigual.

“O monumento dos imigrantes de Valinhos, no interior de São Paulo, é uma importante representação da imigração italiana na cidade. Após a estátua original ter sido furtada no segundo semestre de 2018, uma nova réplica feita pelas mãos do artista Sérgio Ceron foi realocado no local de origem.” Saiba mais sobre o Munumento aos Imigrantes aqui por Júlia Ribeiro


