Após a repercussão do editorial publicado pelo Pé de Figo sobre o “Monumento aos Imigrantes em Valinhos conta história pela metade”, que aponta o apagamento da presença negra na narrativa oficial da cidade, outro município paulista comunica que está no centro de uma discussão semelhante. O Conselho Municipal de Defesa dos Direitos Humanos de Amparo (SP) aprovou, na terça-feira (18/11), a proposta de incluir a figura de uma mulher negra no brasão oficial da cidade, em um gesto inédito de reparação simbólica.
A informação foi compartilhada com a redação do Pé de Figo pelo conselheiro Marcos Duarte com o objetivo de estabelecer uma troca de conhecimentos sobre o tema.
A iniciativa de modificar o brasão de armas daquela cidade integrante do Circuíto das Águas Paulista segue agora para análise de uma comissão técnica, que avaliará aspectos históricos, jurídicos e artísticos antes que a proposta possa ser transformada em projeto de lei e enviada à Câmara Municipal. Ainda não há prazo definido para a conclusão dessa etapa.
Um passo inédito no país e, possivelmente no mundo.
Se aprovada, a mudança colocará Amparo como o primeiro município brasileiro — e possivelmente mundial — a revisar oficialmente seu brasão por razões declaradamente reparatórias, reconhecendo a contribuição da população negra para sua própria formação histórica.
Segundo Duarte, a proposta não busca apagar o passado, mas completá-lo:
“O brasão atual, criado em 1948, apresenta apenas figuras brancas e não reflete toda a história da cidade.”
O escudo vigente traz um fazendeiro e um tropeiro, ambos símbolos alegóricos inspirados em obras do século XIX. Nenhuma referência é feita às pessoas negras escravizadas, que tiveram papel central no desenvolvimento econômico e urbano de Amparo.
A força dos símbolos na construção da memória
Para Marcos Duarte, a revisão do brasão tem caráter educativo. Ele afirma que símbolos públicos ensinam, formam consciência e determinam quem é reconhecido como parte legítima da história.
“A presença negra foi fundamental para a formação de Amparo, mas segue invisível nos símbolos oficiais. Corrigir isso é essencial para fortalecer políticas de igualdade racial e enfrentar manifestações de racismo ainda presentes na sociedade.”
A proposta nasce alinhada ao Estatuto da Igualdade Racial, à Constituição Federal e a documentos internacionais como a Convenção da ONU contra Discriminação Racial e a Declaração de Durban.
Assim como grande parte do interior paulista, Amparo prosperou no século XIX impulsionada pelo ciclo do café, sustentado pelo trabalho forçado de pessoas negras escravizadas. Esses trabalhadores abriram fazendas, ergueram casas, construíram estradas e estruturas urbanas, mas sua presença permanece reduzida ou omitida na iconografia oficial.
O debate pela revisão do brasão surge, portanto, como uma tentativa de corrigir um silêncio histórico, aproximando o município de uma narrativa mais verdadeira sobre sua própria formação.
Imagem criada por IA repercute, mas não é oficial
Após a aprovação da proposta pelo Conselho, o portal Amparo News publicou uma imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial mostrando a possível inclusão de uma mulher negra no brasão. A própria reportagem esclareceu que se tratava apenas de um recurso visual para estimular o debate, sem caráter oficial.
A arte, porém, viralizou e contribuiu para ampliar a discussão nas redes sociais e em grupos de movimentos antirracistas do estado.
A discussão em Amparo acontece em um contexto nacional marcado por disputas simbólicas e episódios de racismo. Recentemente, quatro policiais militares armados invadiram a EMEI Antônio Bento, em São Paulo, após um pai, sargento da PM, protestar contra uma atividade escolar que apresentava orixás no Dia da Consciência Negra. A ação causou pânico na comunidade escolar e reacendeu debates sobre racismo religioso e abuso de autoridade.
Para grupos antirracistas de Amparo, o episódio demonstra que os símbolos importam e que ignorar a presença negra na história abre espaço para novas formas de violência simbólica e material.
O que vem pela frente
Com a aprovação inicial, a proposta segue para a comissão técnica responsável por estudar a viabilidade e fundamentação da alteração. Caso aprovado, o projeto seguirá para votação na Câmara Municipal.
Moradores, especialistas e movimentos sociais acompanham com expectativa, considerando a iniciativa um marco na luta por reconhecimento e valorização da história afro-brasileira.
Confira o Editorial do Pé de Figo:

