Atropelamento ocorreu em 2019 durante ato pela falta de água; vítima tinha 72 anos e estudava para se alfabetizar. Ribeiro fugiu após o crime, mas foi preso horas depois; jornalista ferido afirma que ação foi intencional.
Seis anos após a morte de Luís Ferreira da Costa, de 72 anos, o julgamento que poderia finalmente levar o caso a desfecho foi mais uma vez interrompido. O Tribunal do Júri, marcado para a manhã desta quarta-feira (26), em Valinhos, foi cancelado depois que os advogados de defesa do motorista Leo Luiz Ribeiro abandonaram o plenário.
Segundo o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), os defensores deixaram o local após discordar da decisão do juiz, que indeferiu a apresentação de vídeos e fotografias anexados fora do prazo previsto pelo artigo 479 do Código de Processo Penal. A atitude, interpretada por apoiadores como uma manobra processual, acabou adiando novamente o julgamento de um caso que já se arrasta há seis anos.
O TJ determinou que o ocorrido seja comunicado à OAB e informou que um novo júri foi marcado para 25 de março de 2026.

Caso ocorreu em 18 de julho de 2019 na Estrada do Jequitibá, em Valinhos
Em 18 de julho de 2019, famílias da ocupação Marielle Vive participavam de um ato pacífico na Estrada dos Jequitibás para denunciar a falta de acesso à água — direito básico negado à comunidade. A manifestação pedia apenas que motoristas reduzissem a velocidade para receber panfletos e dialogar com os moradores.
Foi nesse momento que Leo Luiz Ribeiro, então com 60 anos, avançou com a caminhonete sobre o grupo. O impacto atingiu várias pessoas e matou Luís Ferreira da Costa, pedreiro, pai, migrante nordestino e aluno dedicado da escola de jovens e adultos do acampamento. Ele estava prestes a concluir sua alfabetização: faltavam apenas 15 aulas.
Luís era descrito pelos colegas como participativo, solidário e esperançoso. Sonhava em melhorar de vida e acreditava na força da comunidade onde vivia. Sua morte deixou marcas profundas no acampamento e na cidade.
Após o atropelamento, Ribeiro fugiu do local, mas foi identificado pela gravação de um ônibus parado na estrada e preso horas depois, em Atibaia.
Em depoimento, afirmou ter acelerado “por medo”.

Feridos e testemunhos: “Não foi um acidente”
Entre os feridos estava o jornalista Carlos Felipe Tavares, que cobria a manifestação. Ele foi atingido na cabeça e não conseguiu ver o veículo se aproximar, mas declarou que o ato não foi involuntário:
“Eu queria deixar claro que não foi um acidente. Foi um assassinato. Ele quis fazer o que fez.”
As declarações ecoaram entre moradores, apoiadores e entidades de direitos humanos, que seguiram acompanhando o caso ao longo dos anos.


