Por Claydiney Generoso*
A tentativa do prefeito Franklin (PL) de Valinhos de criminalizar e expulsar o MST da cidade não é apenas um ataque a um movimento social. É um ataque direto ao trabalho, à dignidade humana e à própria democracia.
Também revela uma profunda incompreensão — ou recusa — em enfrentar o papel central da Reforma Agrária no combate às desigualdades históricas do Brasil.
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra existe porque existe concentração fundiária, fome, desigualdade e exclusão. O MST não surge do “radicalismo”, como tentam rotular seus críticos, mas da ausência de políticas públicas estruturantes.
A Reforma Agrária segue sendo uma dívida histórica do Estado brasileiro com o povo trabalhador do campo e da cidade. Atacar o MST é desviar o foco do problema real. A terra segue concentrada, muitas vezes improdutiva, sem cumprir sua função social e seu papel na segurança alimentar. Em vez de enfrentar essa realidade, opta-se por criminalizar quem se organiza para sobreviver e produzir alimentos.
Aqui é preciso falar diretamente com quem vive em Valinhos: quem ganha quando o debate vira perseguição ao MST, enquanto os problemas reais da cidade seguem sem solução?
Não é possível ignorar que ataques a movimentos sociais do campo costumam caminhar lado a lado com interesses de especulação imobiliária. Em Valinhos, áreas sensíveis como a Serra dos Cocais vêm sendo historicamente pressionadas por projetos que transformam terra e natureza em mercadoria, sobretudo na forma de condomínios.
Criminalizar quem luta pela terra e pela produção de alimentos também ajuda a silenciar debates incômodos sobre o destino desses territórios e sobre qual projeto de cidade está sendo imposto à população.
É aqui que a psicanálise do trabalho ajuda a compreender o que está em jogo para além do discurso político imediato. O psicanalista Christophe Dejours demonstra que o sofrimento social não é natural nem inevitável: ele é produzido quando o trabalho perde sentido, quando o reconhecimento é substituído pela humilhação e quando a ação coletiva passa a ser tratada como ameaça.
Segundo Dejours, o poder político e institucional pode produzir sofrimento de forma consciente, utilizando a desmoralização de grupos organizados como estratégia de controle social. Ao transformar trabalhadores em inimigos, não se produz ordem, mas submissão. Instala-se o medo, rompe-se a solidariedade e enfraquecem-se os laços que sustentam a vida democrática.
Quando um movimento social como o MST é criminalizado, não se ataca apenas uma organização. Ataca-se o sentido do trabalho coletivo, o direito de lutar por condições dignas de vida e a possibilidade de construção de reconhecimento social. Esse processo gera adoecimento coletivo, silenciamento político e conformismo forçado — marcas típicas de sociedades que normalizam a injustiça social.
A repressão, nesse contexto, não é apenas jurídica. Ela é simbólica. Ao deslegitimar a luta pela terra e pela Reforma Agrária, constrói-se uma narrativa que transforma direitos em ameaça e trabalhadores em problema. O resultado é uma sociedade mais fragmentada, mais adoecida e menos capaz de enfrentar suas desigualdades estruturais.
É preciso dizer com clareza: a Reforma Agrária não é uma pauta ultrapassada. Ela é estratégica para a soberania alimentar, para a geração de trabalho e renda, para a preservação ambiental e para a redução das desigualdades.
Os assentamentos do MST, em todo o Brasil, produzem alimentos, movimentam economias locais e constroem alternativas concretas ao modelo concentrador que gera fome e miséria.
Ao mesmo tempo, é necessário fazer uma crítica honesta ao governo federal. Apesar da mudança de orientação política com a eleição do presidente Lula, a Reforma Agrária ainda não foi enfrentada com a agilidade, a prioridade e a dimensão de um programa nacional robusto.
A lentidão na retomada efetiva da política de assentamentos abre espaço para ofensivas conservadoras e autoritárias nos territórios.
Quando o Estado demora, o conflito se intensifica. Quando a política pública falha, cresce a repressão. Não é coincidência que, diante da ausência de uma política nacional clara e firme de Reforma Agrária, prefeitos se sintam autorizados a atacar movimentos sociais como o MST.
Em Valinhos, tentar “acabar” com o MST não melhora a saúde, não tapa buracos, não amplia vagas em creches, não gera emprego, não melhora a educação e nem vai gerar mais segurança pública. Pelo contrário: a presença do MST na Serra dos Cocais é uma garantia de preservação ambiental e de defesa do território frente à especulação.
Atacar o MST serve apenas para alimentar uma agenda ideológica que precisa de inimigos para esconder sua incapacidade de enfrentar as desigualdades reais. A história é clara: criminalizar movimentos sociais nunca foi sinal de força política, mas de fragilidade democrática.
Defender o MST é defender a Reforma Agrária, o direito à organização, ao trabalho digno e à justiça social. É afirmar que Valinhos não pode escolher o caminho da ignorância, do apagamento social e da exclusão, mas sim o da democracia, da dignidade e da vida.
Sem Reforma Agrária, não há justiça social. Sem justiça social, não há democracia plena.


