EDITORIAL
Há um discurso que volta e meia reaparece em rodas de conversa, nas redes sociais e até em ambientes institucionais: o de que “os problemas nacionais não dizem respeito a Valinhos” ou de que “gente de fora não deveria acessar serviços públicos da cidade”. A frase pode soar pragmática à primeira vista, mas esconde uma visão estreita sobre como o mundo — e o Brasil — realmente funcionam.
Valinhos não está isolada. A economia local depende do cenário nacional. O emprego reage à política econômica federal. O preço dos alimentos é impactado por decisões internacionais. A política ambiental, a reforma tributária, as regras da saúde pública e da educação são definidas em instâncias que ultrapassam os limites do município. Ignorar isso é fingir que vivemos numa bolha.
Mais grave é quando o discurso do isolamento se transforma em exclusão. Quando se afirma que pessoas vindas de outras cidades, ou trabalhadores organizados em movimentos sociais, como os acampados do MST no Acampamento Marielle Vive não deveriam ter acesso a benefícios sociais, estamos diante de um questionamento que ultrapassa o debate administrativo e entra no campo constitucional. Políticas públicas não são favores; são direitos estruturados em lei. O SUS não pergunta onde o paciente nasceu. A assistência social não exige “certidão de naturalidade municipal”.
O acampamento Marielle Vive reúne dezenas de famílias que moram no local há 8 anos, as crianças estudam em escolas municipais, são atendidas pelos serviços de saúde e de transporte, e coloca Valinhos no centro de uma discusão necessária: a reforma agrária é instrumento indispensável para o desenvolvimento de uma nação.
É um direito constitucional que garante a segurança alimentar de milhões de brasileiros, oferecendo condições adequadas de moradia e produção agrícola familiar. Atualmente, existem mais de 9,5 mil assentamentos da reforma agrária com mais de 1 milhão de famílias vivendo nesses espaços.
Valinhos sempre foi construída por gente que veio de fora. Imigrantes, migrantes internos, trabalhadores rurais, empreendedores, estudantes. A cidade que hoje alguns defendem como “exclusiva” nasceu da soma de diferentes origens.
Curiosamente, a própria história recente da cidade desmonta o argumento do pertencimento restrito. O atual prefeito não nasceu em Valinhos. Veio da capital paulista. E isso nunca foi, nem deveria ser, critério para medir legitimidade política ou direito de governar. Se origem não define capacidade administrativa, também não pode definir acesso a direitos básicos.
É legítimo discutir critérios, cadastros e responsabilidades orçamentárias. É necessário debater impactos financeiros. O que não é legítimo é transformar vulnerabilidade em rótulo ou cidadania em privilégio territorial. Municípios fazem parte de um pacto federativo. Pessoas circulam, trabalham, produzem, consomem e contribuem em diferentes cidades ao longo da vida. A mobilidade não é exceção, é regra.
Valinhos não é uma ilha. E tentar transformá-la em uma não a torna mais forte. Apenas a torna menor.

