PÉ DE FIGO – EDITORIAL
Entre ataques, cancelamentos e linchamentos verbais, o debate público brasileiro deixa de lado os temas que realmente afetam a vida da população.
“Quando o adversário vira inimigo e o diálogo vira guerra, a democracia começa a perder seu próprio sentido.”
Há algo de profundamente distorcido no ambiente político brasileiro dos últimos anos. Em vez de ideias, proliferam ofensas. Em vez de argumentos, multiplicam-se ataques pessoais. O debate público, que deveria ser o espaço nobre da democracia, parece ter sido sequestrado por uma lógica de confronto permanente em que o objetivo já não é convencer o adversário, mas destruí-lo moralmente.
Nas redes sociais, nos comentários de notícias e até em setores da própria imprensa, a política muitas vezes se transforma em um espetáculo de hostilidade. A lógica dominante não é a da argumentação, mas a da desqualificação. O adversário político deixa de ser alguém com quem se diverge e passa a ser tratado como um inimigo cuja existência precisa ser deslegitimada, ridicularizada ou silenciada.
Nesse ambiente tóxico, a política deixa de cumprir sua função essencial: discutir caminhos para melhorar a vida das pessoas. Questões concretas e urgentes acabam soterradas por uma avalanche diária de agressões, cancelamentos e disputas que pouco dizem sobre os problemas reais do país.
Onde está o debate consistente sobre o fim da escala de trabalho 6×1, que impacta diretamente a qualidade de vida de milhões de trabalhadores? Onde estão as discussões sérias sobre políticas públicas capazes de enfrentar de maneira eficaz o feminicídio, uma das formas mais brutais de violência ainda presentes na sociedade brasileira? E o que dizer dos desafios estruturais da educação pública, da saúde e da crise climática, que já se manifesta em eventos extremos cada vez mais frequentes, como secas, enchentes e incêndios?
Esses são temas que deveriam ocupar o centro do debate político nacional. São questões que dizem respeito à dignidade, à segurança e ao futuro da população. No entanto, acabam frequentemente eclipsadas por uma disputa permanente de narrativas em que a agressividade vale mais do que a proposta.
E se o cenário já é preocupante, o calendário eleitoral deste ano promete amplificar ainda mais essa distorção. Em vez de campanhas centradas em projetos de país e soluções para problemas reais, corremos o risco de assistir a mais uma temporada de radicalização superficial, em que o barulho das ofensas fala mais alto que o conteúdo das ideias.
Talvez o maior risco que corremos não seja apenas a polarização, mas a pobreza do debate que ela produz. Uma democracia madura não teme a divergência, ao contrário, ela se fortalece quando ideias diferentes são confrontadas com argumentos, respeito e responsabilidade pública.
O Brasil precisa urgentemente reencontrar esse caminho. Porque, enquanto nos perdemos em batalhas de ofensas e ressentimentos, os problemas reais do país continuam à espera de soluções.
E nenhum deles será resolvido no grito.

