Em uma reflexão direta e necessária, o assistente social Claudiney Generoso provoca: reclamar resolve? Ou estamos apenas tentando empurrar o problema para longe dos nossos olhos?
O texto aponta caminhos, questiona respostas fáceis e traz uma verdade incômoda: expulsar não é solução, é só mudar o problema de lugar.
Crescem as reclamações sobre população em situação de rua no centro de Valinhos, e agora?
Por Claudiney Generoso
As reclamações aumentaram. Mas junto com elas, cresce também uma pergunta que Valinhos ainda não respondeu: o que fazer com a população em situação de rua — de verdade?
Nas últimas semanas, moradores e comerciantes da região central têm usado as redes sociais para relatar incômodo com a presença de pessoas vivendo nas ruas. Comentários apontam aumento da circulação, relatos de sujeira e sensação de insegurança em áreas de maior movimento da cidade. O tema ganhou força, mobiliza opiniões e pressiona o poder público por respostas rápidas.
Mas, no meio do barulho, uma questão essencial corre o risco de ser ignorada: reclamar resolve?
A presença de pessoas em situação de rua não surge de forma espontânea — e muito menos se resolve com ações pontuais ou medidas de afastamento. Trata-se de uma realidade complexa, que envolve desemprego, ruptura de vínculos familiares, sofrimento psíquico e ausência de políticas públicas efetivas e continuadas.
Valinhos não está isolada nesse cenário. O crescimento dessa população é uma realidade em diversas cidades brasileiras, reflexo direto do aumento das desigualdades e da fragilização das redes de proteção social. O que aparece nas ruas, portanto, é apenas a face mais visível de um problema estrutural.
É legítimo que moradores se sintam incomodados. A cidade precisa ser organizada, segura e acolhedora para todos. Mas transformar uma questão social em caso de polícia, ou apostar apenas na retirada dessas pessoas de determinados espaços, não resolve o problema — apenas o desloca.
Expulsar não é política pública. É mudar o problema de lugar.
O risco, nesse tipo de abordagem, é escolher o caminho mais fácil: aquele que responde rapidamente à pressão social, mas que não enfrenta as causas reais da situação. Historicamente, cidades que optam por esse modelo acabam convivendo com o mesmo problema de forma recorrente, apenas em diferentes territórios.
Por outro lado, enfrentar a questão exige investimento em políticas públicas estruturadas: assistência social fortalecida, acesso à saúde, estratégias de moradia e oportunidades de reinserção social. Exige planejamento, continuidade e decisão política.
E é justamente aí que está o ponto central do debate.
Valinhos é frequentemente reconhecida por seus indicadores de qualidade de vida. Mas o aumento das tensões no centro revela uma contradição incômoda: a cidade que funciona bem para alguns ainda não consegue garantir dignidade para todos.
Diante disso, a pergunta que fica não é apenas sobre a presença da população em situação de rua — mas sobre o tipo de resposta que a cidade está disposta a construir.
Reclamar é legítimo. Mas não pode ser o ponto final.
Porque, no fim, toda cidade precisa escolher: vai enfrentar o problema de forma real ou apenas tentar escondê-lo?
E essa escolha, mais do que técnica, é política.


