Levantamento do Cetic.br mostra que 21 dos 25 serviços analisados não realizavam aferição de idade no momento do cadastro, reforçando a importância da educação digital dentro das famílias
Crianças e adolescentes estão cada vez mais presentes no ambiente digital, mas a proteção desse público ainda enfrenta desafios que vão além do controle exercido pelos pais. Um recente estudo do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), mostra que 21 dos 25 serviços digitais analisados não realizavam verificação ou estimativa de idade no momento do cadastro.
O levantamento analisou redes sociais, jogos online, serviços de inteligência artificial generativa, mensageria, lojas de aplicativos e outros serviços utilizados ou potencialmente acessíveis por crianças e adolescentes.
Para Lucas Paglia, advogado especializado em Direito Digital, cibersegurança, proteção de dados e compliance regulatório, os dados reforçam que a segurança digital infantil não pode depender exclusivamente de ferramentas de controle parental.
“Os pais têm um papel fundamental, mas não podem ser a única barreira de proteção. A criança precisa ser preparada para reconhecer riscos, compreender os limites de exposição e saber como agir diante de situações suspeitas no ambiente digital”, afirma.
Embora 18 dos 25 serviços analisados utilizassem algum mecanismo de aferição de idade em determinadas situações, o estudo mostra que esses recursos nem sempre eram acionados no momento da criação da conta. Além disso, 15 dos 25 serviços ofereciam algum mecanismo de supervisão parental, como controle de conteúdo, gestão do tempo de uso ou monitoramento de atividades.
“Controle parental é uma ferramenta importante, mas não substitui educação. É preciso ensinar a criança por que determinados dados não devem ser compartilhados, como identificar abordagens suspeitas e, principalmente, que ela pode procurar um adulto quando algo causar desconforto ou medo”, explica Lucas.
Os dados mais recentes da TIC Kids Online Brasil reforçam a dimensão desse desafio. Em 2025, 92% das crianças e adolescentes brasileiros de 9 a 17 anos eram usuários de internet e 84% acessavam a rede mais de uma vez por dia.
Nesse cenário, os riscos incluem exposição excessiva de dados pessoais, contato com desconhecidos, cyberbullying, golpes, acesso a conteúdos inadequados e outras formas de violência no ambiente digital.
Entre as principais recomendações estão:
- > Conversar abertamente sobre internet e seus riscos;
- > Evitar o compartilhamento desnecessário de dados pessoais;
- > Ensinar como identificar situações e abordagens suspeitas;
- > Conhecer os aplicativos, jogos, redes sociais e ferramentas de IA utilizados pelos filhos;
- > Configurar adequadamente os recursos de privacidade e segurança;
- > Utilizar mecanismos de supervisão parental de acordo com a idade e a autonomia da criança;
- > Criar uma relação de confiança para que os filhos procurem ajuda diante de situações desconfortáveis.
A entrada em vigor do ECA Digital, em março de 2026, também trouxe novas obrigações para serviços digitais direcionados a crianças e adolescentes ou de provável acesso por esse público.
“A segurança digital infantil precisa ser construída como um processo educativo contínuo. Mais do que restringir o acesso, é necessário preparar crianças e adolescentes para compreender e enfrentar os riscos de um ambiente digital que já faz parte da vida cotidiana”, conclui o especialista.
Sobre
Lucas Paglia é advogado especializado em direito digital, com foco em cybersegurança, proteção de dados e compliance regulatório. Presidente da Rede Governança Brasil (RGB) e uma das principais referências nacionais em proteção de dados, governança e cibersegurança, com especialização pela Universidade de Harvard. Também é membro da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e possui forte atuação institucional em entidades da América Latina. Como educador, já formou mais de 4 mil alunos em proteção de dados, é professor em instituições como Puccamp e SEBRAE Nacional.
