Integrantes afirmam que não foram consultados sobre o fim da orquestra e contestam justificativas apresentadas pelo Executivo. Projeto recebeu apenas dois votos contrários na primeira votação e deverá voltar à Câmara na próxima terça-feira.
A Orquestra Jazz Sinfônica de Valinhos, uma das expressões da atividade musical da cidade, corre o risco de deixar de existir. Um projeto de lei encaminhado pelo prefeito Franklin Duarte de Lima (PL) à Câmara Municipal propõe sua extinção, sob justificativas que envolvem custos, número de apresentações e dificuldades de funcionamento.
A proposta provocou surpresa e indignação entre os músicos, que afirmam não ter recebido qualquer comunicação prévia da Prefeitura ou da Secretaria de Cultura sobre a possibilidade de encerramento das atividades.
Segundo relato encaminhado ao Pé de Figo, os integrantes estavam reunidos para um ensaio quando receberam a ligação de um vereador alertando que o projeto estava prestes a ser votado em regime de urgência. Diante da notícia, interromperam suas atividades e seguiram para a Câmara Municipal.
A principal reclamação dos músicos não se limita à ameaça de extinção da orquestra. Eles questionam o fato de a Prefeitura utilizar problemas administrativos e operacionais como justificativa para encerrar uma atividade cultural sem, segundo afirmam, ter adotado as providências necessárias para solucioná-los.
Indiferentes aos protestos dos músicos, os vereadores aprovaram o projeto em primeira discussão, sendo que apenas os vereadores Alécio Cau (PSB) e Marcelo Yoshida (PT) votaram contra. A segunda votação está prevista para terça-feira, 27 de outubro.

Orquestra está sem maestro desde março
Um dos exemplos apontados pelos integrantes é a ausência de maestro desde março deste ano. Em julho, representantes da orquestra participaram de uma reunião com o secretário municipal de Cultura e solicitaram urgência na realização de um processo seletivo para contratação de um novo regente. Na ocasião, segundo os músicos, o secretário informou que uma comissão havia sido constituída para tratar do assunto.
Entretanto, até agora, a seleção não teria sido realizada. Apesar da ausência de um maestro titular, os integrantes afirmam que a orquestra continuou realizando apresentações em 2026, algumas sob a regência de Cláudio Gatto.
Para os músicos, a situação revela uma contradição: a falta de estrutura administrativa, cuja responsabilidade atribuem à própria Prefeitura, estaria sendo utilizada como argumento para justificar o encerramento da orquestra.
Prefeitura aponta custo superior a R$ 624 mil
Segundo a administração municipal, o objetivo é revogar a legislação que instituiu o Corpo Musical do Município e redirecionar aproximadamente R$ 600 mil anuais para outras atividades culturais, incluindo cursos gratuitos, apoio a artistas locais e apresentações nos bairros.
Os integrantes recebem auxílio financeiro mensal, sem vínculo empregatício, e o próprio projeto prevê que os recursos economizados permaneçam na Secretaria de Cultura. Os músicos, entretanto, questionam a interpretação desses números. Para eles, o problema está na insuficiência de recursos destinados à cultura, e não necessariamente na manutenção da orquestra.
Outro argumento apresentado pelo Executivo seria o número reduzido de apresentações em 2025 e 2026. Os integrantes contestam essa avaliação e afirmam que atividades importantes não teriam sido devidamente contabilizadas, entre elas a série Terça Sinfônica, o concerto Tudo é Samba, apresentações na PUC-Campinas e em Campinas, além da participação no Desfile de 7 de Setembro.
Eles também lembram que a organização e divulgação do calendário de apresentações são atribuições da Secretaria Municipal de Cultura, conforme o Decreto nº 9.660/2017.
O secretário de Cultura e Turismo, Fabrício Bizarri, afirma que a proposta não impede a continuidade artística da orquestra, mas transfere a busca de financiamento para editais, patrocínios, parcerias e leis de incentivo. A Prefeitura também informa que o grupo realizou três apresentações até setembro de 2026 — número contestado pelos músicos.
Educação musical e reconheciento cultural também entram na discussão
O projeto questiona ainda a integração da orquestra com os alunos do Centro Cultural Vicente Musselli. Os músicos afirmam que já ocorreram parcerias com a escola municipal de música e destacam o caráter educativo dos ensaios abertos da Terça Sinfônica. Argumentam também que uma orquestra profissional e uma escola de música possuem funções diferentes, mas complementares.
Outra justificativa mencionada seria a ausência de reconhecimento formal da orquestra como patrimônio cultural imaterial do município. Para os integrantes, a inexistência desse registro não justifica sua extinção. Eles lembram que a própria Câmara Municipal já reconheceu institucionalmente a importância da orquestra, citando a Moção nº 154/2022, aprovada por unanimidade, e o Requerimento nº 1310/2019.
A Prefeitura também teria apontado dificuldades para apresentações em espaços públicos, em razão da necessidade de palco, sonorização e outros equipamentos. Os músicos contestam esse argumento e recordam apresentações realizadas em praças e escolas com estruturas reduzidas, inclusive na Praça Washington Luiz.
Votação de urgência provoca questionamentos
De acordo com o relato dos integrantes, dois vereadores defenderam que o projeto não fosse votado antes de uma discussão mais ampla sobre suas consequências e questionaram as justificativas apresentadas para a extinção.
Apesar dos pedidos, a votação foi realizada, com apenas dois votos contrários à proposta. O projeto deverá retornar à Câmara na próxima terça-feira para uma nova votação, mantendo a expectativa sobre o futuro da Orquestra Jazz Sinfônica de Valinhos.
A decisão também levanta uma pergunta que merece resposta: antes de propor a extinção de uma orquestra, foram esgotadas as possibilidades de reorganização, melhoria de gestão e ampliação de suas atividades? Para os músicos, essas alternativas sequer chegaram a ser discutidas com os principais interessados.
O futuro da Orquestra Jazz Sinfônica de Valinhos agora depende da tramitação do projeto na Câmara Municipal. E a discussão que se apresenta vai além da continuidade de um grupo musical: envolve a preservação de um trabalho cultural, a aplicação dos recursos públicos e a participação da sociedade nas decisões sobre a cultura da cidade.
Confira a Nota de Repúdio do Sindiciato dos Músicos Profissionais no Estado de São Paulo:

