Carta Aberta à População de Valinhos
“A Prefeitura de Valinhos publicou em suas redes um vídeo sobre o projeto de lei que pretende revogar a legislação que criou o Corpo Musical do Município de Valinhos, estrutura responsável pela existência da Jazz Sinfônica, com uma desprezível fala que revela uma tentativa de minimizar as consequências de uma decisão que representa um grave retrocesso para a política cultural do município.
O projeto, encaminhado à Câmara Municipal em regime de urgência, propõe revogar justamente a lei que dá sustentação legal à Jazz Sinfônica. É preciso deixar claro o que isso significa: ao extinguir a legislação que instituiu o Corpo Musical, a Prefeitura elimina a estrutura legal que garante a existência da orquestra como política pública municipal.
Apesar disso, a prefeitura afirma que “a orquestra pode continuar atuando, buscando recursos por meios de leis de incentivo à cultura, editais de fomento, patrocínios e parcerias”.
A declaração tenta apresentar como uma alternativa viável aquilo que, na prática, representa a transferência da responsabilidade do poder público para os próprios músicos. Traduzindo: a Prefeitura criou a orquestra, selecionou seus integrantes, ofereceu estrutura e condições de trabalho, mas agora pretende se desresponsabilizar por sua manutenção. Se os músicos quiserem continuar tocando juntos, terão que encontrar, por conta própria, os recursos necessários.
Não se trata de questionar a importância das leis de incentivo, dos editais ou dos patrocínios privados. Esses mecanismos são fundamentais para o financiamento da cultura e já sustentam importantes grupos musicais em nossa região. A questão é que a Jazz Sinfônica de Valinhos possuía um diferencial que não pode ser simplesmente ignorado: a estabilidade institucional e a remuneração de seus músicos, condições que contribuíram diretamente para a excelência artística alcançada pela orquestra.
A manutenção de um corpo musical permanente não é um privilégio, mas uma escolha de política pública. Significa reconhecer que a cultura não deve depender exclusivamente da capacidade dos artistas de disputar editais ou conquistar patrocinadores. Significa garantir continuidade, planejamento, condições dignas de trabalho e acesso da população a uma produção artística de qualidade.
Desmontar essa estrutura e sugerir que os músicos busquem recursos no mercado não é oferecer uma solução. É abandonar uma responsabilidade pública construída ao longo dos anos.
Há ainda outro aspecto que merece atenção. A Jazz Sinfônica vinha perdendo espaço na programação oficial do município, enquanto apresentações de um grupo de samba do qual o próprio secretário Fabrício Bizarri participa passaram a ocupar parte desse espaço. Essa situação exige transparência da administração municipal sobre os critérios utilizados na definição da programação cultural e na valorização dos diferentes grupos artísticos da cidade.
Afinal, a política cultural de um município não pode ser conduzida a partir de preferências pessoais de seus gestores. Deve estar orientada pelo interesse público, pela diversidade de linguagens artísticas, pela valorização dos profissionais da cultura e pela preservação das instituições culturais construídas pela cidade.
A Prefeitura Municipal de Valinhos precisa assumir a responsabilidade política pela proposta apresentada. Não é aceitável tentar convencer a população de que a orquestra poderá continuar existindo normalmente quando se pretende eliminar justamente as condições institucionais que garantiram sua trajetória.
A Jazz Sinfônica não é apenas um conjunto de músicos que pode ser reunido ocasionalmente, conforme a disponibilidade de recursos. É um patrimônio cultural de Valinhos, resultado de investimento público, trabalho artístico e construção coletiva. O debate, portanto, não é sobre a possibilidade de os músicos continuarem tocando. É sobre a decisão da Prefeitura de deixar de garantir a existência de uma orquestra pública e permanente.
Valinhos não precisa de justificativas para o desmonte de suas instituições culturais. Precisa de uma administração que reconheça seu valor e assuma a responsabilidade de preservá-las.”
Músicos da Orquestra Jazz Sinfônica de Valinhos e cidadãos em defesa da cultura
