Por Fabio Cerqueira*
- “Você tem ouvido falar em noticiários, TVs, rádio, sobre assassinatos de homossexuais?”
- “Já sim”
- “E o que você pensa disso?”
- “Eu acho que tem mais é que assassinar mesmo”
(Trecho de uma matéria realizada na década de 1980, cujo link se encontra no final do texto)
Leonardo Rodrigues Nunes. Esse é o nome de mais um jovem gay assassinado no Brasil, mais precisamente em São Paulo, na última semana. Leonardo foi vítima de uma emboscada ao sair de sua casa para um encontro marcado em um aplicativo de relacionamento gay, num tipo de crime que está ficando cada vez mais comum e que tem deixado a comunidade LGBT+ em alerta.
Em entrevista dada a grandes veículos de imprensa, o pai do rapaz disse que “ele morreu porque era gay. Estamos vivendo um um mundo de ódio”. Já a delegada que registrou o caso discorda da afirmação do pai em luto. Ea internet, em polvorosa, se digladia na pergunta: “afinal, Leonardo foi mesmo vítima da homofobia?”
Há que se colocar que, historicamente, pelo menos desde os tempos de dominação da igreja católica sobre o mundo ocidental, os homens gays sempre se viram obrigados a se colocar em situações de risco para poderem satisfazer suas necessidades sexuais e afetivas. E essa imposição sobre a nossa socialização se dá pela necessidade latente de esconder a condição de pessoa LGBTQIA+ daqueles que, ainda hoje, não nos reconhecem como iguais, sejam da família, de grupos de amigos, da sociedade como um todo, e até do aparato estatal. Lembremos que até hoje muitos países criminalizam as afetividades homossexuais, mas muitos se esquecem (ou talvez os mais jovens não saibam) que até pouquíssimo tempo atrás, essa era a realidade na maioria dos países, inclusive os que se autodenominam “civilizados”.
Encontros em parques escuros durante a madrugada, em bares e boates clandestinos e em trilhas desertas eram alguns dos perigosos métodos que aqueles que nos precederam foram obrigados a adotar para terem o mínimo de satisfação sexual em meio à vida reprimida a qual eram submetidos em nome da moral e dos bons costumes. E ainda hoje, flertar com outro homem no tête-à-tête é sempre um risco para nós, homens gays.
Toda essa condição, essa repressão, essa dificuldade de expressar a sexualidade torna os homens gays, e, claro, toda a comunidade LGBTQIA+, uma comunidade carente também de afetividade. E o surgimento dos aplicativos de paquera gay proporcionaram um ambiente um pouco mais “seguro” para nós, já que, supõe-se, todos ali são também homens gays e estão ali para os mesmos objetivos. Mas o risco está sempre presente, em todo lugar, e o equilíbrio entre a necessidade e o risco é algo difícil de alcançar, o que gera uma vulnerabilidade enorme para nossa comunidade.
Portanto, quando assassinos se aproveitam dessa vulnerabilidade dos homens gays para armarem emboscadas para assalto, sequestro ou qualquer outro tipo de crime violento, isso tem sim como fundo a homofobia. É um crime que tem a condição de homossexual da vítima como característica preponderante para que se efetive, pois se aproveita de toda a pressão que a sociedade historicamente coloca sobre nossos corpos. Sim. Leonardo foi vítima da homofobia. Mais um, no país que mais mata pessoas LGBT+ no mundo. Mais um que nos revolta, que nos amedronta, mas que também nos dá ainda mais motivos para ampliarmos nossa luta pelas nossas vidas.
Neste Mês do Orgulho LGBTQIA+ nossos gritos precisam ser ainda mais ecoados, e é para isso que saímos às ruas de várias das principais cidades do país para celebrar o orgulho e lutar por mais direitos, que garantam que nossas vidas não sejam ceifadas, para que não permitamos outros Leonardos. Em 2024 Valinhos entra também neste circuito, com sua 1ª Parada LGBT+, expondo que essa nossa cidade também enfrenta esses mesmos problemas, e que sem políticas públicas e sem gestores públicos realmente engajados, seguiremos distante de uma verdadeira igualdade.
Link para o vídeo: https://www.facebook.com/watch/?v=308710306395582

*Fabio Cerqueira é gestor e produtor cultural, Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela PUC-Campinas, Especialista em Cultura e Educação pela FLACSO Brasil e Mestrando no Programa de Mestrado Interdisciplinar em Ciências Humanas e Sociais Aplicadas da Unicamp. Presidente do PSOL Valinhos.

