Enquanto amplia o número de deputados de 513 para 531, o Congresso mantém engavetada a proposta que isenta do IR quem ganha até R$ 5 mil mensais.
A promessa fundamental da democracia é representar os interesses da maioria. No entanto, a composição do Congresso Nacional — dominada por representantes da elite econômica — tem imposto uma distância cada vez maior entre o que a população deseja e o que de fato se transforma em lei.
O exemplo mais recente é a proposta do governo federal de isentar do Imposto de Renda os brasileiros que recebem até R$ 5 mil mensais. A medida, anunciada em março de 2025, beneficiaria milhões de trabalhadores de baixa e média renda e precisa ser aprovada ainda neste ano para entrar em vigor em 2026. No entanto, passados mais de quatro meses, a proposta continua engavetada, sem sequer ter sido votada nas comissões.
A estagnação ocorre no mesmo período em que a Câmara dos Deputados aprovou o aumento no número de parlamentares: de 513 para 531, a partir da próxima legislatura. O argumento técnico é a atualização proporcional da representação estadual conforme dados demográficos. Mas o contraste salta aos olhos: há urgência para ampliar cadeiras no Parlamento — e nenhum movimento para aprovar uma medida de alívio tributário para a maioria da população.
A resposta para esse paradoxo está na própria composição do Legislativo. A maioria dos parlamentares pertence à elite econômica: empresários, latifundiários, grandes investidores, donos de mídia e profissionais do topo do funcionalismo. Poucos têm trajetória vinculada ao serviço público de base, à educação, à saúde ou ao mundo do trabalho assalariado.
Esses representantes não apenas decidem quais pautas avançam — eles também são, muitas vezes, diretamente beneficiados por um sistema tributário regressivo. Enquanto lucros e dividendos continuam isentos de imposto desde 1995, trabalhadores formais que ganham R$ 4.800 por mês seguem pagando IR. Uma proposta que corrigisse essa distorção — como a isenção até R$ 5 mil — colide com os interesses de uma minoria poderosa, que controla o Parlamento.
Esse não é apenas um problema técnico, mas uma distorção estrutural de representação. O Congresso brasileiro está ampliando seu número de cadeiras sem resolver seu déficit mais grave: a sub-representação das classes populares. A expansão quantitativa não é suficiente se os novos nomes seguirem a mesma lógica de pertencimento econômico e ideológico.

