Valinhos enfrenta atualmente índices preocupantes de alfabetização, com muitas crianças que não atingem a meta de estarem plenamente alfabetizadas ao final do 2º ano. O ICA (Índice Criança Alfabetizada), do Ministério da Educação, mostrou que, em 2024, apenas 48,21% dos estudantes da rede municipal de Valinhos estavam alfabetizados na idade correta – abaixo da meta local de 55,55%. Com uma queda 2,49%, o valor é ainda menor do que o registrado em 2023, que foi de 50,7%
O resultado revela um problema que, segundo professores e especialistas, vem se arrastando por anos: baixos salários, perda de profissionais para redes vizinhas e desgaste do trabalho docente. Na última semana, o descontentamento ecoou nas redes sociais em meio à eleição do Conselho Municipal de Educação e ao anúncio de medidas emergenciais apresentadas pelo secretário municipal de Educação, André Amaral — propostas que, para muitos professores, escondem cortes e transferem o problema para etapas posteriores do ensino básico.
A proposta da Secretaria da Educação prevê reduzir o número de alunos por sala no Infantil I e II e nos 1.º e 2.º anos do Fundamental I, mas autoriza turmas de até 30 a 33 estudantes do 6.º ao 9.º ano do Fundamental II. O secretário defendeu a medida como forma de “melhorar a alfabetização” e de “racionalizar recursos públicos”. Para a presidente do CME, Ionara Veiga, entretanto, a proposta foi recebida “com surpresa”: não vieram à reunião dados técnicos, econômicos ou pedagógicos que respaldem a mudança.
Ainda segundo a Secretaria da Educação, o currículo será ampliado com as aprendizagens fundamentais em Língua Portuguesa e Matemática, além de aulas de Artes, Educação Física e Inglês. A partir de 2026, inclusive, a língua estrangeira será implementada em todas as escolas a partir do Infantil 1. Para suprir essa demanda, 60 novos professores devem ser contratados até dezembro.
Profissionais da rede classificam o plano como um corte disfarçado. A preocupação central é lógica: deslocar a pressão das primeiras séries para os anos seguintes — justamente quando a alfabetização deve ser consolidada — tende a reduzir o acompanhamento individual e ampliar o risco de prejuízo à aprendizagem, sobretudo de alunos que demandam atenção especial.
“Em meio a um mar de alunos espremidos numa sala de aula, não há malabarismo pedagógico que faça um aluno autista prestar atenção e aprender. As mães atípicas devem se preparar para o caos”, alertou o professor Adauto Damasio, em crítica contundente sobre o impacto previsto para a educação especial.
Medida emergencial de 25 minutos e críticas da comunidade escolar
Numa demonstração que irritou boa parte dos professores e pais, a única iniciativa anunciada até agora pela Secretaria diante dos índices negativos foi um aumento de 25 minutos na carga horária do Ensino Fundamental I (1.º ao 5.º ano). Segundo a comunidade escolar, o turno que já vigora — com aulas das 7h às 11h e das 13h às 17h em boa parte das unidades — sofreu apenas esse incremento tímido, que, na avaliação de docentes, é insuficiente para enfrentar problemas estruturais. “Aumentaram 25 minutos; isso não resolve a superlotação nem melhora, de fato, o trabalho pedagógico”, resumem professores ouvidos pela reportagem.
Membros da rede ainda relatam sensação de ação de marketing: com o argumento de ampliar aulas (inclusive oferecendo inglês em algumas escolas do EFI), a Prefeitura teria divulgado saídas antecipadas em determinados colégios — algo que, segundo professores, mascarou a real extensão do problema e gerou confusão sobre horários reais. Na prática, dizem educadores, o tempo efetivo de trabalho pedagógico segue deficitário, e Valinhos continua atrás de outros municípios da RMC — sobretudo se considerado o aprofundamento da superlotação do 3.º ao 9.º ano.
Profissionais em fuga, déficit salarial e a voz do Legislativo
A fragilidade do quadro municipal ganha contornos mais preocupantes quando se analisa o mercado de trabalho docente: a combinação de salários defasados, jornadas sobrecarregadas e falta de perspectivas empurra profissionais a buscar vagas em outras cidades. A evasão de professores — citada por representantes sindicais e por docentes ouvidos pela reportagem — reduz a capacidade do sistema de implementar políticas consistentes de alfabetização e eleva a rotatividade, um fator que afeta diretamente a continuidade do ensino.
O vereador Marcelo Yoshida (PT), professor da rede municipal e único parlamentar a levar o tema à Câmara Municipal, ressalta que a questão salarial é central para entender a crise. “É importante destacar a defasagem salarial histórica, não só da educação, mas de todo o serviço público. Em 2018 perdemos entre 10% e 20% do salário, além de nos ser retirado o plano de saúde. A progressão vertical não é paga desde 2012, as licenças-prêmio caminham a passos de tartaruga com uma fila de espera que supera mais de mil pedidos”, afirmou Yoshida, apontando fatores que, na sua avaliação, agravam o êxodo de profissionais.
Sem planejamento orçamentário e com um corpo docente fragilizado, medidas de “ajuste” correm o risco de ser paliativas e até contraproducentes.
Números que não mentem – e um cenário regional desigual
Os dados do INEP colocam Valinhos em patamar inferior ao desejado e em desacordo com o movimento de recuperação observado em boa parte do país. Na RMC, cidades como Indaiatuba, Mogi Guaçu e Santa Bárbara d’Oeste cumpriram as metas; Americana sobressaiu com 64,36%, crescimento em relação aos 58,6% do ano anterior. Já Campinas, Hortolândia, Piracicaba, Sumaré e Limeira também não alcançaram os percentuais estabelecidos.
Especialistas lembram que a alfabetização não se encerra no fim do 2.º ano; ela se consolida em anos subsequentes. Assim, a proposta de permitir turmas maiores a partir do 3.º ano contraria orientações pedagógicas amplamente defendidas por pesquisas e por documentos nacionais: turmas menores nesses anos favorecem a atenção individualizada e a recuperação de defasagens.
Reações, debate e o cenário político local
A questão ganhou redes e espaços de debate: professores divulgaram manifestações de insatisfação e o Conselho Municipal de Educação sinalizou que a proposta exige estudos técnicos e diálogo. Para Ionara Veiga Barbosa, o encaminhamento precipitado prejudica a transparência e o processo democrático de construção de políticas públicas educativas.
Do lado da gestão, a justificativa para alterar a distribuição de vagas por sala tem relação com “otimização de recursos” e com o objetivo declarado de reforçar alfabetização nas séries iniciais. Resta a dúvida: a otimização apresentada vem acompanhada de análise de impacto ou é uma resposta emergencial a um quadro orçamentário e de pessoal já crítico?
Especialistas consultados defendem respostas integradas: valorização salarial e carreira docente, formação continuada, redução real de turmas em todas as etapas, infraestrutura adequada, políticas de atração e retenção de professores e programas de alfabetização que envolvam família e comunidade. A alfabetização é uma prioridade estrutural que exige investimentos consistentes e planejamento de médio e longo prazo.
Não há solução para a crise da educação básica em Valinhos sem ampla participação dos professores, pais de alunos e da sociedade em geral. O debate e as decisões que virão nos próximos meses serão determinantes para que a cidade deixe de regredir nos indicadores e ofereça educação pública de qualidade às suas crianças.

