Seis anos após o atropelamento que resultou na morte de Luís Ferreira da Costa, de 72 anos, durante um ato do MST em Valinhos, a Justiça manteve para o próximo 26 de novembro de 2025, às 9h, o julgamento de Leo Luiz Ribeiro, que será submetido ao Tribunal do Júri. O caso, registrado em julho de 2019, mobilizou movimentos sociais, entidades de direitos humanos e gerou forte repercussão nacional à época.
Ribeiro, que tinha 60 anos na data dos fatos, chegou a ser preso preventivamente, mas responde ao processo em liberdade. Ele é acusado de avançar com a caminhonete sobre participantes da manifestação do acampamento Marielle Vive, causando a morte de Luís Ferreira e ferindo outras cinco pessoas, entre elas um jornalista que registrava o ato.
A Promotoria havia solicitado o adiamento do julgamento, alegando que uma moção de repúdio ao MST aprovada pela Câmara Municipal de Valinhos poderia influenciar os jurados.
O juiz responsável pelo caso, no entanto, considerou que a moção “não possui o alcance e a repercussão imaginados pelas partes” e decidiu manter a data do júri.
Assim, o julgamento ocorrerá normalmente na próxima quarta-feira (26), no Fórum de Valinhos, com presença do acusado, testemunhas e familiares da vítima.
O episódio ocorreu em 18 de julho de 2019, na Estrada do Jequitibá. Cerca de mil famílias do acampamento Marielle Vive!, organizado pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, realizavam um ato para denunciar a falta de acesso à água na região.
A manifestação pedia apenas que motoristas reduzissem a velocidade para receber um panfleto e alguns alimentos produzidos pelos próprios acampados.

Segundo vídeos e depoimentos colhidos na investigação, uma caminhonete acelerou atrás de um ônibus parado, invadiu a contramão e atingiu manifestantes e apoiadores. O motorista deixou o local sem prestar socorro. Luís Ferreira foi arrastado por vários metros e morreu no local.
Outras cinco pessoas sofreram ferimentos de diferentes gravidades.
Conhecido como “Seu Luís”, a vítima havia migrado do Nordeste para o Sudeste em busca de trabalho. No acampamento, encontrara não apenas moradia, mas projetos de formação e pertencimento. Estava perto de concluir sua alfabetização pelo programa “Sim, eu posso” e planejava, pela primeira vez, tirar sua licença de motorista.
Em relatos da época, integrantes do acampamento descreveram Seu Luís como um “lutador incansável”, dedicado à vida comunitária e às atividades de produção agrícola.
O caso ocorreu em um momento de crescente polarização política e acirramento dos conflitos agrários no país. Movimentos sociais apontavam que discursos de ódio nas redes sociais e o enfraquecimento das políticas de Reforma Agrária contribuíam para a escalada da violência no campo.
Levantamentos da Comissão Pastoral da Terra mostram que, no período, dezenas de projetos de assentamentos permaneciam paralisados e o número de conflitos havia aumentado, acompanhados por ameaças de despejo e registros de assassinatos ligados à luta pela terra.
As famílias do Acampamento Marielle Vive!, onde Seu Luís morava, faziam parte desse cenário. Criado em 2018 em uma área considerada improdutiva, o acampamento nasceu durante as Jornadas de Abril, em memória da vereadora Marielle Franco.
Seis anos depois, o julgamento é aguardado com expectativa por familiares, integrantes do MST, moradores da região e entidades de direitos humanos. Para o movimento, o júri representa a chance de que o caso tenha uma resposta da Justiça após anos de luta e mobilização.
A sessão está marcada para começar às 9h e poderá se estender por todo o dia, conforme o número de depoimentos, debates e deliberações do conselho de sentença.


