Em Do Outro Lado do Balcão, João Pozzuto narra a cidade que viu, ouviu e sentiu ao longo de 34 anos atrás do balcão
Há livros que contam histórias. Outros, mais raros, guardam cidades inteiras dentro de suas páginas. Do Outro Lado do Balcão, de João Pozzuto, é um desses casos. A obra é um mergulho sensível na Valinhos que existia antes dos supermercados, dos muros altos e da pressa — uma cidade vista do ponto de observação mais humano possível: o balcão de um armazém.
Logo nas primeiras páginas, o leitor é acolhido por um prefácio afetuoso e saboroso assinado por Timo Andrade, musicista e cineasta, neto de Oswald de Andrade, um dos grandes nomes do modernismo literário brasileiro. Frequentador assíduo do armazém e profundo conhecedor da alma brasileira, Timo confere à obra um valor ainda mais simbólico. Ele faleceu em 2010, apenas um mês antes da publicação do livro, o que torna seu texto de abertura uma espécie de despedida carinhosa, e também um selo de legitimidade afetiva e cultural.
“O mais importante de sua vida ali atrás do balcão era a percepção das coisas que se passavam no seu contato com os fregueses, e tudo aquilo que acontecia na rua. Todo fato era percebido. João foi, pelo telefone, padre, bicheiro, conselheiro espiritural, telefonista de funerária, cabo eleitoral, candidato a vereador, verdadeiro amigo dos amigos.” (Timo Andrade)
No primeiro capítulo, reproduzido a seguir na íntegra, João Pozzuto conduz o leitor por uma Valinhos que já não existe, mas que sobrevive na memória coletiva: a cidade dos armazéns, das carroças, dos cinemas de rua, das festas populares, das conversas demoradas e do comércio feito olho no olho. É um relato construído a partir do que ele viu, ouviu e sentiu ao longo de 34 anos atrás do balcão, acompanhando de perto personagens, hábitos, transformações urbanas e mudanças profundas no modo de viver.

A Valinhos dos armazéns
Aos que viveram na época em que existiam os armazéns, uma recordação. Aos jovens valinhenses e aos que nesta cidade há pouco chegaram, um breve relato de como eram as coisas por aqui la pela década de sessenta.
A cidade nos tempos dos armazéns era outra coisa. As pessoas eram diferentes, os comportamentos, então, nada a ver com os de agora. No tempo em que existiam os armazéns, nossa cidade respirava melhor, sorria e encantava. A Avenida Onze de Agosto só era transitada até o nosso Armazém. Havia um cano grosso e preto elevado e seguro por pilares de tijolo aparente, aí mesmo nessa avenida, que eu também cheguei a andar sobre ele. Através deste cano vinha, e ainda vem, água da Adutora de Rocinha em Vinhedo. Ao lado dele, onde hoje está a rodoviária, existia o Clube Atlético Valinhense, mas a única coisa que restou dele foram as arquibancadas que estão lá para todo mundo ver. Valinhos possuía três cinemas. O Cine da Paz, o Cine Brasil, ambos na Rua Sete de Setembro, eo Cine Saturno lá na Vinte e Um de Dezembro. Ao lado do Colégio Professor Antônio Alves Aranha estava instalada a Casa da Lavoura, onde vizinha dela havia um “rapadão”, que além de servir de nosso campo de futebol, periodicamente montavam-se ali Circos e Rodeios.
Refiro-me ao local onde hoje está o prédio desativado da Telesp. Nos tempos dos armazéns, atrás da prefeitura, havia um rio que depois foi transposto para mais perto da Estação Ferroviária, dando espaço para a criação da Avenido dos Imigrantes. O Pronto Socorro era ao lado da prefeitura. A Rua Sete continuava em direção a Vila Santana, onde os veículos atravessavam a linha férrea assim que autorizados pelo homem da casinha, que abria e fechava a porteira quando o trem se aproximava. Viam-se pelas ruas da cidade muitas carroças puxadas por cavalos que faziam o transporte de mercadorias. Não havia rodoviária e os ônibus que circulavam em nossa cidade partiam de um grande bar existente na Rua Vinte e Um de Dezembro. À meia-noite do último dia do ano podíamos assistir a Corrida de São Silvestre, que aqui também acontecia.
A Festa do Figo era realizada no Largo de São Sebastião, que mais tarde foi transferida para a Praça Washington Luiz. O Bepe Spadaccia percorria a cidade inteira vendendo rifa de automóvel para ajudar a Santa Casa. Não havia quem não comprasse. O prefeito Jerônimo Alves Correa havia mandado pendurar na sacada da prefeitura uma bela e enorme paragata de barro. A Rua Cândido Ferreira, bem no centro da cidade, ainda possuía um trecho de terra. No tempo dos armazéns, na descida da Avenida Independência, antes de se chegar ao cemitério São João Batista, podiam ser vistos dos dois lados da pista milhares de pés de figo plantados, e todos sulfatados nos sítios que ali existiam. Quando chovia, os bairros Macuco, Joapiranga e Reforma Agrária, tinham a circulação de ônibus interrompida devido às más condições das estradas. Crianças brincavam com carrinhos de rolimă pelas calçadas do centro da cidade.
Eu cheguei a ver Romisetas estacionadas na Rua Sete de Setembro, onde funcionavam o Bar do Mané, a Padaria São Luiz, o Bar Esplanada e a Lanchonete do Zinho. Mais adiante estavam a farmácia do Mamoni e a São Sebastião, mas o mais procurado por todos era mesmo o Vadinho. Nos tempos dos armazéns, quando chegava o dia das eleições, mesinhas eram colocadas nas calçadas próximas aos locais de votação, onde os cabos eleitorais dos candidatos faziam a distribuição de material. Havia poucas sessões eleitorais, e eram todas no centro da cidade, na Rua Itália, no Colégio Alves Aranha e no Salão Paroquial atrás da Igreja Matriz. Exames para Carteira de Habilitação eram realizados em Campinas, cidade próxima a Valinhos.
O Zé Roque fazia o maior sucesso com seu programa Domingo Alegre, no Ginásio da Rigesa. Os magníficos desfiles das escolas de Samba Leão da Vila, Gessy Lever, Rigesa, Unidos da Madrugada e Formiga, eram realizados nas ruas Antônio Carlos e Sete de Setembro. Não havia supermercados na cidade, época em que as pessoas dialogavam com os atendentes na hora de fazerem as compras. O mata borrão era muito utilizado nas escolas devido ao uso das canetas tinteiro.
Na época dos armazéns, nós brincávamos à noite pelas calçadas do bairro sem nos preocuparmos com violência. O saudoso Reinaldo da Silva, o Pitoquinho, todos os dias nos cumprimentava com a famosa frase “E a festa continua”. Seu número de disputa das eleições, 2210, está até hoje gravado na mente de muitos valinhenses.
Padeiros entregavam pão com carroças de cavalo e o seu Hermínio Gobato fazia a distribuição do leite em seu furgão. No feriado do Dia do Trabalho havia desfile dos trabalhadores pelas ruas da cidade. Em frente a Matriz de São Sebastião, um caminhão biblioteca estacionava e as pessoas retiravam livros pra levar e ler em casa. O Mário pipoqueiro e o Oscar do cachorro-quente faziam o maior sucesso com seus produtos, sem falar das encrencas políticas que o Bepe arrumava nos belos tempos dos Paragatas e Gravatinhas, como estão descritos nos livros por ele publicados. Nos tempos dos armazéns, prevalecia o diálogo, a honestidade e a vontade de fazer as coisas certas.
Hoje tudo mudou. Há quem diga que para melhor. Muita coisa se transformou, acredito que para pior. E nestas mudanças e transformações, aquilo que mais de concreto e original pudesse existir, como os muitos armazéns que tínhamos em Valinhos, teve um fim melancólico, tudo em nome da danada da evolução. Comecei a trabalhar muito cedo no Armazém, portanto, junto a esta minha batalha pude acompanhar e sentir na pele as transformações pelas quais passou nossa cidade.

