A expansão da miséria nas ruas da Região Metropolitana de Campinas não é acidente: é consequência de escolhas políticas que abandonam a saúde mental, a moradia, a Assistência Social e o trabalho digno.
Por Claudiney Generoso
A Região Metropolitana de Campinas é uma das regiões economicamente mais fortes do país. Polo tecnológico, industrial e universitário. Bilhões circulam anualmente entre Campinas, Valinhos, Sumaré, Hortolândia e demais municípios.
Mas há outra realidade crescendo nas calçadas. Mais pessoas dormindo nas ruas. Mais barracas improvisadas. Mais vidas expostas ao frio, à violência e à invisibilidade.
E os dados confirmam que não se trata de percepção isolada.
Levantamentos nacionais apontam que o Brasil saltou de cerca de 281 mil pessoas em situação de rua em 2019 para mais de 350 mil em 2024–2025, praticamente dobrando em poucos anos. A Região Sudeste concentra a maior parte dessa população.
Campinas, inclusive, figura entre as cidades brasileiras com maior número absoluto de pessoas em situação de rua segundo registros do Cadastro Único. Ou seja: o que vemos na RMC não é um caso pontual. É reflexo de uma tendência estrutural que encontra aqui terreno fértil na combinação entre desigualdade urbana, crise habitacional e fragilização das políticas públicas.
A população em situação de rua não surge do nada. Ela é produzida por desemprego, informalidade, ruptura de vínculos familiares, sofrimento psíquico, dependência química sem rede adequada de cuidado e, sobretudo, ausência de política habitacional consistente.
O que vemos hoje na RMC é resultado de anos de subfinanciamento da assistência social, falta de integração entre políticas públicas e ausência de um plano metropolitano sério para enfrentar o problema.
É preciso dizer com clareza: operação inverno não é política pública.
Abrigos emergenciais são importantes, mas são paliativos. Distribuição de cobertores é necessária, mas não resolve. Campanhas moralizantes não substituem moradia digna, acesso ao trabalho e acompanhamento contínuo.
Sem moradia permanente, sem renda e sem política intersetorial entre assistência social, saúde mental e habitação, a pessoa retorna para a rua. E retorna mais fragilizada.
Enquanto isso, o debate público muitas vezes se desloca para discursos de “zeladoria urbana”. Praças são esvaziadas. Pertences são removidos. Pessoas são empurradas de um município para outro. A lógica deixa de ser proteção social e passa a ser gestão da visibilidade da pobreza.
A pergunta que precisa ser feita é simples: como pode uma das regiões mais ricas do interior paulista naturalizar o crescimento da população em situação de rua?
Não é falta de orçamento. É falta de prioridade e a RMC precisa urgentemente de:
Plano metropolitano integrado para população em situação de rua;
Transparência de dados atualizados e metas públicas;
Política habitacional estruturante;
Ampliação do financiamento do SUAS;
Estratégias permanentes de inclusão produtiva e acompanhamento social continuado.
A rua não é escolha. É resultado.
Quando o Estado não garante moradia, ele produz exclusão.
Quando não financia adequadamente a proteção social, ele amplia a vulnerabilidade.
Quando trata a pobreza como problema de ordem pública, ele reforça a violência institucional e omissão se torna projeto do Estado.
A Região Metropolitana de Campinas precisa decidir se continuará administrando a miséria ou se terá coragem política para enfrentá-la de forma estrutural.
Porque enquanto discutimos, há pessoas dormindo no chão.
E isso não pode ser normal.


