EDITORIAL
Mobilização de servidores é rotulada como “ato político” num tom que tenta deslegitimar o direito de reivindicar
A semana que passou em Valinhos expôs mais do que um impasse entre servidores e governo. Escancarou uma visão preocupante sobre o próprio significado da política.
O sindicato dos servidores municipais convocou um ato em frente à prefeitura para denunciar baixos salários, condições precárias de trabalho e a falta de diálogo com a administração. A resposta do Executivo foi curiosa: dedetização agendada para a mesma tarde, cancelamento de evento na região central e dispensa dos funcionários às 13h. Oficialmente, medidas administrativas. Na prática, um evidente esvaziamento do protesto.
Some-se a isso o medo histórico de represálias que ainda ronda parte do funcionalismo, especialmente entre contratados e comissionados, e o resultado foi uma adesão abaixo do esperado. Até aí, nada inédito. O que surpreende é a comemoração pública diante do que foi classificado como “fracasso”. Vídeos oficiais circularam celebrando a baixa presença, e aliados trataram a mobilização como derrota política.
Parte da imprensa reforçou a narrativa ao destacar a participação de sindicalistas de outras cidades como se fosse um desvio de finalidade. Ignorou-se que a solidariedade entre entidades representativas é prática histórica do movimento sindical. Como se trabalhadores devessem protestar isoladamente, em silêncio e sem apoio.
Mas o ponto central da semana talvez esteja na expressão repetida em manchetes e discursos: “era um ato político”. Sim, era. E desde quando reivindicar salário digno, condições adequadas de trabalho e abertura de diálogo deixou de ser política?
A política não é propriedade exclusiva de prefeitos, vereadores ou ocupantes de cargos públicos. Política é qualquer ação coletiva que disputa prioridades, orçamento e rumos da cidade. Governar é ato político. Protestar também é.
Reduzir mobilizações a “ato político” como se isso fosse desqualificação é uma forma elegante de dizer que apenas quem está no poder pode fazer política. E isso, sim, deveria nos preocupar.
Uma cidade madura não celebra o esvaziamento do debate. Enfrenta-o. Dialoga. Negocia. Argumenta. Diverge, mas não deslegitima.
Valinhos precisa decidir se quer uma política restrita aos gabinetes ou uma cidade onde trabalhadores, movimentos e cidadãos também tenham voz. Porque, gostemos ou não, a política acontece, dentro e fora do Paço.

