Meio ambiente, poder e desigualdade em Campinas e Valinhos. Quando preservar também é disputar território.
Por Vítor Hugo Penedo
Falar de meio ambiente na Região Metropolitana de Campinas em 2026 exige a coragem de encarar o espelho da história. Em Campinas — cidade que era tida como castigo para os escravizados, última a abolir a escravidão no Brasil — e em sua vizinha Valinhos, e em toda a RMC, a geografia da exclusão não é obra do acaso; é um projeto de poder que dita quem respira ar puro, quem terá acesso a espaços arborizados e a saneamento basico, quem vai morar próximo a um ‘lixão’ ou em área nobre.
Após representar a sociedade civil na 5ª Conferência Nacional de Meio Ambiente, em 2025, percebo que o debate institucionalizado ainda tenta minimizar esse problema que é estrutural.
O racismo ambiental tem endereço, cor, classe e, fundamentalmente, gênero. Como brigadista da Brigada Popular Cachorro do Mato e militante do Movimento Negro Unificado (MNU), vejo na linha de frente que a crise climática não é neutra. Ela atinge de forma devastadora territórios negros, bairros periféricos vulnerabilizados e principalmente as mulheres, mulheres negras da periferia, sofrem ainda mais os efeitos negativos da crise climática que vivemos, pois são as primeiras a lidar com a escassez hídrica, a insegurança alimentar e a precariedade da saúde pública.
Enquanto o “ambientalismo de jardinagem” dá de ombros para a pauta socioambiental, são os corpos negros e periféricos que carregam o peso de um sistema que expropria a natureza e a dignidade humana. Não levando em consideração que os que mais sofrem são históricamente os que mais preservam.
Em Valinhos, o caso do Acampamento Marielle Vive é um exemplo nítido dessa dinâmica que ocorre aqui. O Acampamento Marielle Vive, reconhecido pelo Governo Federal para se tornar um assentamento de reforma agrária, enfrenta a resistência feroz do poder público local. Sob um falso pretexto de “proteção ambiental” na Serra dos Cocais, onde já combatemos grandes incêndios florestais , sem o apoio do governo local, tenta-se barrar o direito à terra de centenas de famílias que já provaram, na prática, como cuidar do solo, proteger as águas e produzir alimento saudável através da agroecologia.
É a ironia perversa do racismo ambiental: o Estado ignora o impacto de grandes condomínios de luxo que rasgam nossas matas e impermeabilizam o solo, mas usa a legislação como arma para impedir que o povo negro e trabalhador, que o movimento popular organizado ocupe seu lugar de direito. Não se faz justiça climática com projetos de reflorestamento em condomínios de luxo, abraçando árvores e praças em bairros de alto padrão, enquanto as comunidades tradicionais e as periferias de nossa região são expulsas pela especulação imobiliária e pelo descaso institucional. O fortalecimento do movimento ambientalista passa, obrigatoriamente, pelo apoio irrestrito a territórios em luta como o Marielle Vive e outros exemplos de resistência na região.
Citando Chico Mendes, reitero: “Ambientalismo sem luta de classes é jardinagem”. E eu acrescento: em nossa região, ignorar o recorte de raça, classe e gênero transforma essa jardinagem em manutenção do status quo colonial. O protagonismo da luta socioambiental não pode ser relegado à branquitude, que muitas vezes nos retira a voz enquanto decide o destino de territórios que nunca pisou de fato nesses locais. Desconhecem e relutam em aceitar que nesses territórios se produz ciência, sabedoria e o conhecimento ancestral na preservação, proteção e cuidados com a natureza.
A verdadeira defesa da vida reside na ancestralidade e na experiência de quem protege o território por necessidade extrema. O poder público se ausenta por conveniência, mas o movimento ambientalista não pode se ausentar por cegueira. Fortalecer este movimento significa enegrecer as suas bases e priorizar as pautas de quem está no barro.



Um Chamamento Urgente: Por uma Aliança de Toda a Sociedade
Por isso, faço aqui um chamamento que atravessa as fronteiras dos movimentos sociais e alcança toda a sociedade civil de Valinhos, Campinas e região.
Convoco os ambientalistas negros e negras, as lideranças dos movimentos negros, as mulheres das comunidades e os guardiões dos territórios. Mas, acima de tudo, convido cada cidadão e cidadã, cada trabalhador e estudante, a se somar no enfrentamento direto ao racismo ambiental, na luta Socioambiental e na defesa do Meio Ambiente ecologicamente equilibrado e de uso comum, como preconiza o art. 225 da Constituição Federal de 1988. Esta não é uma luta isolada; é um convite para que toda a sociedade compreenda que a preservação do planeta é indissociável da justiça racial e social.
Precisamos romper com o modelo atual que quer “salvar o planeta” sem tocar na propriedade privada, no patriarcado ou na exploração do trabalho. O ecossocialismo é a única resposta possível para uma crise que nasce da acumulação desenfreada, do consumo exacerbado e do sacrifício sistemático da base da pirâmide.
Justiça climática é reparação histórica. É hora de ocupar os espaços de decisão com a força daqueles que sabem que a libertação do povo negro, o fim da opressão de gênero e a preservação da natureza são uma única e inseparável luta.
O tempo da jardinagem acabou. Agora, é o tempo da revolução socioambiental por todos nós.
Sobre o autor:

Vítor Hugo Penedo
Ambientalista
Vice-presidente da PROESP ( Sociedade Protetora da Diversidade das Espécies)
Coordenador Administrativo e Brigadista Florestal na Brigada Popular Cachorro do Mato
Atua junto à coordenação municipal do MNU – Movimento Negro Unificado de Campinas .
Militante do MES/PSOL, membro da Comissão Popular da Água e do Clima Luís Ferreira, e da Maré Negra.
Eleito em 2025, representante da sociedade civil na 5° Conferência Nacional de Meio Ambiente. Hoje empenhado na elaboração de um relatório sobre Racismo Ambiental em Campinas e região, projeto que está em fase de adequação junto ao Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania.
Que vai traçar um mapa com.dados de pesquisa sobre as áreas mais afetadas pelos efeitos da crise climática. Atuou nos combates aos incêndios florestais na Serra dos Cocais em 2024 e 2025.


