Quatro décadas separam o candidato que percorria o interior paulista do presidente que retorna para discutir soberania tecnológica e fortalecimento do SUS.
Na tarde da última terça-feira, Valinhos entrou por algumas horas no mapa da política nacional. O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, acompanhado do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, visitou a fábrica da Bionovis, empresa brasileira dedicada à produção de medicamentos biológicos de alta complexidade. Não foi apenas uma agenda institucional. Foi também um gesto político e simbólico: discutir o futuro da saúde pública, da ciência e da soberania tecnológica do país a partir de uma cidade do interior paulista.
A Bionovis integra 13 Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDPs) que articulam laboratórios públicos e privados para garantir a fabricação nacional de medicamentos estratégicos. Desde 2023, o Ministério da Saúde já investiu mais de R$ 5,6 bilhões nessas iniciativas, responsáveis por entregar 8,4 milhões de medicamentos ao SUS, incluindo tratamentos para câncer, doenças raras e enfermidades autoimunes. O objetivo é simples e poderoso: reduzir a dependência externa, ampliar o acesso a terapias modernas e fortalecer um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo.
Ao segurar nas mãos um medicamento para artrite reumatoide, cujo preço no mercado privado chega a cerca de seis mil reais, Lula resumiu o sentido daquele momento. “Criamos o SUS para atender a todos. Produzir esses medicamentos aqui significa dignidade para o povo brasileiro”, afirmou o presidente, lembrando que apenas quatro países dominam essa tecnologia. Em outras palavras: saúde também é soberania.
A visita repercutiu intensamente e foi tratada por muitos como a primeira passagem de Lula por Valinhos. Mas a memória da cidade guarda outro capítulo dessa história. Lula já esteve aqui duas vezes em 1982, quando percorreu o interior paulista como candidato ao governo do Estado pelo recém-fundado Partido dos Trabalhadores.
Naquele ano, a Praça Washington Luís recebeu dois comícios da caravana política que cruzava o interior levando o ex-metalúrgico que se tornaria uma das figuras centrais da redemocratização brasileira. Não havia grandes shows nem estruturas espetaculares. O próprio candidato era o acontecimento. A praça cheia viveu algo próximo de uma catarse coletiva enquanto Lula discursava, a sua voz rouca ecoou em direção à antiga Gessy Lever, e a tarde de domingo ganhava um eco político que muitos ainda guardam na memória.
Quatro décadas depois, o cenário é outro. Lula retorna a Valinhos como presidente da República, anunciando investimentos em ciência, tecnologia e produção nacional de medicamentos que podem impactar a vida de milhões de brasileiros. O Brasil que ele encontrou naquela praça mudou.
Mas a história recente também trouxe à tona as tensões do presente. Em ano eleitoral, a visita presidencial foi acompanhada por manifestações de apoiadores e protestos de grupos da extrema direita. A democracia convive com o dissenso — e ele é legítimo.
O que causa perplexidade é outro gesto: a ausência do prefeito de Valinhos no evento oficial. Divergências ideológicas fazem parte da política. O que não deveria fazer parte da vida pública é a incapacidade de reconhecer momentos em que o interesse coletivo precisa falar mais alto do que as diferenças partidárias. A presença do chefe de Estado em um anúncio que envolve ciência, saúde pública e projeção nacional para a cidade era, evidentemente, um desses momentos.
Prefeitos passam. Governos passam. Mas certos acontecimentos entram para a memória de uma cidade.
Em 1982, Lula esteve em Valinhos como um candidato que percorria o país defendendo mudanças. Em 2026, retorna como presidente para falar de medicamentos, tecnologia e soberania nacional.
Entre um momento e outro passaram-se mais de quarenta anos. Valinhos estava lá nas duas ocasiões. E a história, silenciosa como sempre, registrou tudo
1982: A voz rouca do ex-metalúrgico ecoou na Praça Washington Luis





2026: o presidente visita a Bionovis e é recebido pelos vereadores Alécio Cau (PSB) e Marcelo Yoshida (PT)



