Júri reconhece homicídio culposo e evita prisão; decisão gera questionamentos sobre justiça no caso que marcou Valinhos
O Tribunal do Júri realizado nesta quarta-feira (25), em Valinhos, condenou o motorista responsável pelo atropelamento que matou um manifestante da ocupação Marielle Vive, em 2019. Leo Luiz Ribeiro foi sentenciado a 2 anos e 11 meses de prisão por homicídio culposo — quando não há intenção de matar —, mas não será preso. A pena foi convertida em prestação de serviços à comunidade, pagamento de multa equivalente a cinco salários mínimos e suspensão do direito de dirigir por dois anos.
O caso, que há quase seis anos ecoa como um dos episódios mais simbólicos de conflito social na cidade, resultou na morte do pedreiro Luís Ferreira da Costa, de 72 anos, e deixou outras cinco pessoas feridas, entre elas um jornalista que registrava o protesto. O atropelamento aconteceu durante uma manifestação de moradores da ocupação, que bloqueavam a Estrada do Jequitibá para reivindicar direitos básicos como acesso à água e energia.
Durante o julgamento, encerrado na noite desta quarta-feira, os jurados optaram por enquadrar o crime como culposo. A decisão contrasta com a posição da assistência de acusação, que sustentava que o motorista assumiu o risco de matar ao avançar com o veículo contra a multidão. Para a família da vítima, a pena aplicada é insuficiente diante da gravidade do caso.
Após o atropelamento, Ribeiro fugiu sem prestar socorro e foi localizado horas depois em Atibaia, após o veículo ser identificado por imagens gravadas no local. Em depoimento, ele afirmou que acelerou por medo ao ter o carro cercado pelos manifestantes e disse não ter percebido que havia atingido alguém — versão contestada por testemunhas, que apontam que o veículo avançou em alta velocidade.
O julgamento desta quarta-feira ocorreu após uma tentativa frustrada em novembro do ano passado, quando a defesa abandonou o plenário em protesto após ter um pedido de adiamento negado — atitude que foi considerada ilegal pelo juiz responsável pelo caso.
Mais do que encerrar um processo judicial, a decisão do júri reabre um debate em Valinhos: até que ponto a resposta da Justiça corresponde ao impacto de uma vida perdida em meio à luta por direitos básicos? O caso Marielle Vive segue como um retrato das tensões entre cidade, desigualdade e acesso à dignidade.

