Nota de repúdio é divulgada contra a venda da área ambiental estratégica; Câmara e prefeitura agilizam lei de tombamento do imóvel
Entidades ambientais, autoridades e moradores de Valinhos divulgaram nesta segunda-feira (22) uma nota de repúdio ao leilão da Fazenda Remonta, área ambiental estratégica na divisa entre Campinas e Valinhos, marcado para o próximo dia 1º de julho.
O Fundo Habitacional do Exército, dono do terreno, espera arrecadar R$ 90 milhões com o imóvel. Uma das últimas grandes áreas verdes da região, a fazenda tem mais de 4 milhões de metros quadrados, cerca de 407 hectares.
As entidades e os moradores alegam que a urbanização do espaço trará grandes prejuízos à biodiversidade, à proteção hídrica e ao abastecimento de água de Valinhos, Campinas e toda a região metropolitana. Essa é a segunda tentativa de leiloar a Fazenda Remonta. A primeira ocorreu em 2004, quando o Exército Brasileiro firmou um Contrato de Promessa de Permuta para uso imobiliário da área, que foi contestado judicialmente.
A Prefeitura de Valinhos também correu para evitar a segunda tentativa de venda do terreno e proteger a chamada Gleba B da Fazenda Remonta, conhecida como Coudelaria de Campinas. Esse trecho fica localizado em Valinhos, próximo ao Anel Viário Magalhães Teixeira e ao Córrego Invernada, com aproximadamente 1,6 milhão de metros quadrados, cerca de 162 hectares.
Na semana passada, na terça-feira (16), a Câmara Municipal de Valinhos aprovou, em regime de urgência, um projeto de lei de tombamento que declara de relevante valor histórico, cultural, paisagístico e ambiental a área denominada Gleba B, sancionado três dias depois pelo prefeito de Valinhos, Franklin Duarte de Lima (PL). No primeiro dia de seu mandato, em 1º de janeiro de 2025, o prefeito já havia publicado um decreto suspendendo a autorização para que a área fosse destinada a um empreendimento imobiliário.
Na quarta-feira (17), foi a vez do CMMA Conselho Municipal do Meio Ambiente aprovar uma Moção de Apelo ao governo municipal, para que sejam adotadas medidas efetivas visando assegurar a proteção ambiental da Fazenda Remonta.
A lei sancionada na sexta-feira prevê a proibição expressa de qualquer intervenção que resulte em descaracterização do local, supressão de vegetação, aterramento de recursos hídricos e parcelamento do solo. A lei também observa a delimitação da área envoltória de proteção, as diretrizes de drenagem da bacia do Córrego Invernada e os corredores de conectividade do programa Reconecta Valinhos. A expectativa é de que a lei inviabilize o leilão.
De acordo com as entidades ambientais, a Fazenda Remonta tem 41,5% de sua extensão coberta por Floresta Estacional Semidecidual Montana original, ecossistema da Mata Atlântica e santuário de biodiversidade para fauna e flora ameaçadas de extinção. A Fazenda Remonta atua como proteção de serviços ecossistêmicos (água, temperatura e solo), com papel determinante na drenagem da bacia do Córrego Invernada e como zona estratégica para a recarga de aquíferos, o que assegura a sustentabilidade hídrica de Valinhos, Campinas e região.
Espaço ecológico
O local funciona como um grande espaço de transição ecológica em uma região altamente urbanizada, mantendo fragmentos de Mata Atlântica, áreas de drenagem, nascentes e conectividade entre remanescentes florestais. Ele está inserido em um sistema ambiental que influencia a qualidade da água, o controle de enchentes, o clima local e a biodiversidade regional.
As entidades ambientais apontam que manter a área verde contribui para a qualidade de vida de toda a região, porque Valinhos e Campinas formam uma região com forte pressão de expansão urbana, condomínios e loteamentos, e a conurbação traria grandes prejuízos ambientais e sociais.
A Fazenda Remonta tem papel estratégico por funcionar como corredor ecológico entre áreas protegidas, conectada à Estação Ecológica de Valinhos e à Floresta Estadual Serra D’Água. Entre as espécies de árvores no local estão uatibá, peroba e jacarandá, além de registros de fauna como cutia, cachorro-do-mato, jaguatirica, seriema e diversas aves.
Um estudo do Instituto de Pesquisas Ambientais do Estado de São Paulo sobre a vegetação da Fazenda Remonta identificou ao menos 50 espécies nativas, distribuídas em 46 gêneros e 29 famílias botânicas, além da ocorrência de espécies vegetais classificadas como vulneráveis. Na área verde há circulação de animais, troca genética entre populações e manutenção de espécies que não sobrevivem em pequenas ilhas verdes isoladas.
A Fazenda Remonta pertence à Bacia Hidrográfica dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ), uma das regiões hidrográficas mais pressionadas do Estado de São Paulo pela concentração urbana, industrial e agrícola. A Fazenda Remonta está relacionada à sub-bacia do Córrego Invernada, considerada área especial de proteção para resguardar a drenagem urbana de Valinhos.
A área também possui relação com sistemas de drenagem de Campinas, incluindo a microbacia do Córrego do Piçarrão, conforme estudos e debates ambientais sobre a área. O solo permeável e a vegetação permitem a infiltração da água da chuva, o abastecimento de lençóis freáticos e a manutenção de nascentes e cursos d’água, além de conter enchentes, erosões e assoreamento dos córregos.
Exército
A Fazenda Remonta tem histórico fortemente ligado à estratégia militar brasileira. A fazenda foi fundada em 1938 para abrigar a Coudelaria de Campinas, posto oficial do Exército Brasileiro voltado para a criação, reprodução e fornecimento de cavalos para as Forças Armadas.
Os animais criados no local foram utilizados por tropas de cavalaria do Exército e divisões tradicionais de grande prestígio da história do país, como os Dragões da Independência. O termo “Remonta” se refere ao jargão militar para a compra, seleção e tratamento de cavalos destinados às tropas.
Com o avanço do desenvolvimento urbano nas décadas seguintes, a Fazenda Remonta transformou-se em um dos maiores cinturões verdes e refúgios ecológicos da região.
Íntegra da Nota de Repúdio
“Manifestamos repúdio à venda da Fazenda Remonta, área estratégica do Exército Brasileiro.
A Remonta é a última proteção natural da sub-bacia do Córrego Invernada e do Ribeirão Pinheiros. Sua destruição pode agravar enchentes já recorrentes e comprometer a segurança hídrica de milhões de pessoas.
A área da Coudelaria possui ainda valor histórico e cultural para a região, parte da memória e identidade de Valinhos e Campinas. Perder esse patrimônio é apagar um capítulo importante da nossa história.
Defendemos a preservação ambiental, hídrica e histórica da Fazenda Remonta.
Vender essa área é comprometer o futuro da região.”

Assinam esta nota as entidades
Associação de Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Valinhos (AEAAV)
Fórum Sócio Ambiental de Campinas
Associação Protetora da Diversidade das Espécies (PROESP)
Movimento Resgate Cambui
Centro de Cidadania, Defesa dos Direitos Humanos e Desenvolvimento Social Dorothy Stang
Observatório Social da Região Metropolitana de Campinas
Nova Ágora Cooperativa Habitacional
Autoridades e moradores
Laís Helena Antonio dos Santos Aloise – ex-vice-prefeita de Valinhos
Vagner Alves de Souza – vereador
Alexandre Luiz Tonetti – ex-candidato a prefeito e urbanista
José Luiz Martini – conselheiro de CMDU – Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano de Valinhos
Arnaldo Machado de Sousa
Sandra Gerais de Camargo Rangel
Carlos Roberto Sena Júnior
Estefânia Correa Barbosa
Luís Henrique Laporta Gonçalves Scaglione
Norma Sueli Laporta Gonçalves
João Victor Marostica Zupirolli
Natali Rospendowski
Luzia Alves de Oliveira
José Armando Valdevino
Bruno Geopato
Fátima Capelli Geopato
Ana Paula Geopato
Maurício Souza Campos
Carmem Sylvia Bueno Gamboa
Marcelo Souza de Campos
Solange Cubas Souza de Campos
Luiz Carlos Souza de Campos
Maria Christina Souza de Campos
José da Luz Ferreira
Rosangela Cristina Siqueira
Edson Isaías Siqueira Silva
Ronaldo Isaías Silva
Naira Martins
Soraia Spolidorio
Thiago Corrêa
Robson Luiz Moreira
Dorival Luiz Moreira
Rosa Maria Ribeiro Moreira
Marlene Barbosa da Silva
Ricardo Gomes
Pedro Gomes
Vitoria Beatriz Siqueira Silva
Victor Alexandre Cardoso
Pedro Roberto Rodelli
Fátima Regina de Oliveira Rodelli
Patrícia Felipe Barboza
Julio César Correia da Silva
Sonia Marly Martins
Jucimara Martins
Rita de Cássia Ferreira
Cecília Camargo Mendes Martini
Fazenda Remonta em vermelho




