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AQUI SERÁ MAR: artista de Valinhos registra em Tuvalu um país que luta para não desaparecer

30 de agosto de 2026 8 minutos de leitura
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𝗚𝗲𝗻𝗶𝘃𝗮𝗹𝗱𝗼 𝗔𝗺𝗼𝗿𝗶𝗺 𝗽𝗮𝘀𝘀𝗼𝘂 𝟯𝟬 𝗱𝗶𝗮𝘀 𝗻𝗼 𝗽𝗲𝗾𝘂𝗲𝗻𝗼 𝗮𝗿𝗾𝘂𝗶𝗽𝗲́𝗹𝗮𝗴𝗼 𝗱𝗼 𝗣𝗮𝗰𝗶́𝗳𝗶𝗰𝗼 𝗲 𝘁𝗿𝗮𝗻𝘀𝗳𝗼𝗿𝗺𝗼𝘂 𝗽𝗮𝗶𝘀𝗮𝗴𝗲𝗻𝘀, 𝗲𝗻𝗰𝗼𝗻𝘁𝗿𝗼𝘀 𝗲 𝗵𝗶𝘀𝘁𝗼́𝗿𝗶𝗮𝘀 𝗲𝗺 𝘂𝗺 𝗽𝗼𝗱𝗲𝗿𝗼𝘀𝗼 𝗿𝗲𝗴𝗶𝘀𝘁𝗿𝗼 𝗮𝗿𝘁𝗶́𝘀𝘁𝗶𝗰𝗼 𝘀𝗼𝗯𝗿𝗲 𝗮𝘀 𝗺𝘂𝗱𝗮𝗻𝗰̧𝗮𝘀 𝗰𝗹𝗶𝗺𝗮́𝘁𝗶𝗰𝗮𝘀 𝗲 𝗼 𝗳𝘂𝘁𝘂𝗿𝗼 𝗱𝗲 𝘂𝗺 𝗽𝗼𝘃𝗼 𝗮𝗺𝗲𝗮𝗰̧𝗮𝗱𝗼 𝗽𝗲𝗹𝗼 𝗮𝘃𝗮𝗻𝗰̧𝗼 𝗱𝗼 𝗼𝗰𝗲𝗮𝗻𝗼

Imagine viver em um país onde o mar não representa apenas a paisagem que se vê todos os dias pela janela. Ele é parte da história, da cultura e da identidade de um povo, mas também a maior ameaça ao seu futuro.

Foi nesse cenário, em um dos pontos mais isolados do planeta, que o artista visual Genivaldo Amorim viveu uma das experiências mais marcantes de sua trajetória.

Na última sexta-feira (28), o Espaço Lyrata, em Valinhos, proporcionou uma noite de arte, história e reflexão ao apresentar o trabalho desenvolvido pelo artista a partir de sua permanência em Tuvalu, pequeno país insular do Oceano Pacífico que se tornou um dos maiores símbolos mundiais da vulnerabilidade diante das mudanças climáticas.

Nascido em Umuarama, no Paraná, em 1973, Genivaldo vive e trabalha em Valinhos desde o início da década de 1990. Sua produção transita pela pintura, desenho, instalações, objetos, fotografia e diferentes mídias e suportes.

Em 2025, porém, sua arte o levou muito mais longe.

30 DIAS NO MEIO DO PACÍFICO

Genivaldo permaneceu durante 30 dias em Tuvalu. Dali nasceu a série fotográfica “Aqui Será Mar”, construída a partir de uma intervenção aparentemente simples, mas carregada de significado.

Uma placa de madeira com a inscrição “Aqui Será Mar” foi levada e fotografada em diferentes pontos de Tuvalu.

A mensagem transforma cada fotografia numa espécie de encontro entre presente e futuro. Atrás da placa aparecem casas, ruas, árvores, praias, construções e moradores. Lugares onde hoje existe vida e onde as próximas gerações poderão enfrentar uma realidade profundamente diferente.

Tuvalu é formado por nove pequenas ilhas e atóis e está entre os países mais baixos do planeta. É justamente essa geografia que tornou o arquipélago uma espécie de linha de frente da crise climática mundial.

Estudos da NASA indicam que o nível do mar na região deverá continuar subindo nas próximas décadas independentemente das reduções imediatas das emissões globais. Em Funafuti, capital do país, a projeção aponta aproximadamente 19 centímetros adicionais nas próximas três décadas. Dependendo do nível de aquecimento global, a elevação poderá ultrapassar meio metro até o final do século.

Mais do que desaparecer literalmente sob as águas de uma hora para outra, Tuvalu enfrenta um processo muito mais complexo: aumento das inundações, erosão costeira, avanço da água salgada sobre reservas de água doce e dificuldades crescentes para manter moradias, infraestrutura e atividades humanas.

A ameaça, portanto, não é apenas perder território. É perder as condições de permanecer nele.

UM PAÍS QUE SE RECUSA A DESAPARECER

Mas reduzir Tuvalu à imagem de um país condenado seria também ignorar uma parte essencial dessa história.

Os tuvaluanos lutam para permanecer em sua terra.

Projetos de adaptação climática buscam recuperar e elevar áreas de Funafuti, criar espaços para moradias e serviços públicos e aumentar a resistência do arquipélago à elevação do oceano. Além de uma inusitada proposta de criação de um nação virtual.

Ao mesmo tempo, uma questão inédita começa a desafiar o próprio conceito de país: o que acontece com uma nação se parte de seu território deixar de ser habitável?

Em 2023, Tuvalu e Austrália assinaram o Tratado da União Falepili. O acordo, que entrou em vigor em 2024, reconhece que a soberania e a condição de Estado de Tuvalu deverão continuar existindo mesmo diante dos impactos da elevação do nível do mar provocada pelas mudanças climáticas.

O tratado também criou um caminho de migração com dignidade. Até 280 cidadãos de Tuvalu por ano podem obter residência permanente na Austrália, com possibilidade de viver, trabalhar e estudar naquele país.

Não se trata, porém, simplesmente de organizar a evacuação de uma nação. O próprio acordo reconhece o desejo dos tuvaluanos de permanecer em seu território enquanto isso for possível e sua profunda ligação ancestral com a terra e o mar.

Tuvalu, portanto, trava duas batalhas simultâneas: uma para continuar fisicamente habitável; outra para garantir que sua cultura, identidade e soberania sobrevivam independentemente do que aconteça com seu território.

QUANDO A ARTE SE TORNA MEMÓRIA

É justamente nesse ponto que o trabalho realizado por Genivaldo Amorim ganha uma dimensão que ultrapassa a fotografia.

“Aqui Será Mar” pode ser visto hoje como uma intervenção artística sobre a emergência climática. Com o passar dos anos, porém, essas mesmas imagens poderão adquirir outro significado. Elas serão também memória.

Registro de lugares, paisagens, pessoas e modos de vida existentes neste começo do século XXI em uma das regiões mais vulneráveis do planeta.

Sob curadoria de Isa Bandeira, “Aqui Será Mar” já passou por diferentes cidades brasileiras e também resultou na publicação de um livro que reúne fotografias, informações e reflexões produzidas a partir da experiência em Tuvalu.

Na apresentação da obra, Isa lança uma pergunta que acompanha todo o trabalho: “O que podemos fazer diante dos efeitos da degradação ambiental?” Para a curadora, as preocupações presentes no conjunto produzido por Genivaldo em Tuvalu são de ordem humanística e apontam para as possibilidades de interação, partilha e descobertas proporcionadas pela cultura.

Talvez esteja justamente aí uma das maiores forças de “Aqui Será Mar”.

Genivaldo não foi ao outro lado do mundo apenas para fotografar os efeitos das mudanças climáticas. Foi encontrar pessoas que vivem diariamente diante de uma pergunta que, cedo ou tarde, poderá alcançar inúmeras outras regiões costeiras do planeta: até quando poderemos continuar vivendo aqui?

“ISOLAMENTO”

Depois da apresentação realizada no Espaço Lyrata, o Pé de Figo perguntou a Genivaldo qual sentimento escolheria para resumir os 30 dias vividos naquele pequeno atol cercado pela imensidão do Pacífico.

A resposta veio em uma palavra: “Isolamento.” Mas um isolamento que precisou ser vencido diariamente.

“Isolamento superado pelo trabalho diário em busca das imagens e histórias surpreendentes de Tuvalu”, definiu o artista.

Talvez seja também essa a grandeza de sua aventura. Genivaldo Amorim saiu de Valinhos, atravessou o planeta e chegou a um pequeno país que luta contra a possibilidade de perder parte de seu chão. Voltou trazendo fotografias.

Mas trouxe também histórias, rostos e memórias de um povo que se recusa a ser lembrado apenas como vítima das mudanças climáticas. E deixou registrado, através da arte, um alerta que não pertence somente a Tuvalu.

Porque quando uma placa anuncia “Aqui Será Mar”, a pergunta inevitável não é apenas o que acontecerá com aquelas ilhas distantes do Pacífico. É quantos outros lugares do planeta poderão, algum dia, receber a mesma placa.

TAGGED: Aqui Será Mar, Artes Visuais, Fotografia, Genivaldo Amorim, Pé de Figo, Tuvalu, Valinhos

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Heriberto Pozzuto 30 de agosto de 2026 30 de agosto de 2026
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