Quase um ano depois de o Pé de Figo questionar as ausências no Monumento ao Imigrante, Jerci Maccari responde com pincéis e tela: ‘Remonumento’ devolve à cidade a memória daqueles que chegaram antes e ficaram fora da homenagem.
Em 20 de novembro de 2025, Dia da Consciência Negra, o Pé de Figo publicou o editorial “O Monumento dos Imigrantes em Valinhos conta a história pela metade”.
A provocação era direta. O monumento que se tornou uma das referências visuais de Valinhos homenageia a contribuição dos imigrantes, especialmente italianos, para a construção da cidade. Uma homenagem legítima e importante. Mas havia uma ausência que também precisava ser enxergada.
E os negros que vieram antes?
Quase um ano depois, aquela reflexão deixou as páginas do Pé de Figo e ganhou tinta, cores e tela pelas mãos de um dos mais reconhecidos artistas plásticos de Valinhos: Jerci Maccari. Nasceu “Remonumento”.
O próprio nome da obra carrega a provocação. “Remonumento” é um neologismo que permite diferentes leituras. Pode significar olhar novamente para o monumento, mas também remontá-lo simbolicamente, reconstruir seu significado e rever a memória que ele representa.
E talvez esteja justamente aí a força da obra de Maccari. O artista não propõe apagar a homenagem aos imigrantes. Propõe ampliar o olhar. É como se a tela perguntasse: quem a cidade escolheu colocar sobre o pedestal de sua memória, e quem permaneceu fora dele?
Porque monumentos não são apenas pedra, concreto ou bronze. Eles contam histórias. E aquilo que deixam de contar também diz muito sobre a maneira como uma sociedade escolheu lembrar seu passado.
“Minha homenagem aos negros”
Jerci Maccari explica de forma direta o que pretendeu expressar:
“Remonumento é uma revisão do monumento que somente valoriza a colonização feita por italianos, esquecendo quem aqui veio primeiro: o negro que fez o trabalho pesado. Esta obra questiona essa parcialidade que ignora quem aqui chegou bem antes e, sob pesado chicote, deu início à formação de Valinhos. Minha homenagem aos negros.”
A manifestação do artista toca justamente no ponto levantado pelo editorial publicado pelo Pé de Figo. Muito antes da grande imigração europeia que marcou profundamente Valinhos a partir do final do século XIX, pessoas negras escravizadas já trabalhavam neste território e participavam de sua formação econômica e social. Sua presença, entretanto, nem sempre ganhou a mesma dimensão na memória pública da cidade.
A arte faz a pergunta novamente
Foi justamente essa ausência que o Pé de Figo procurou colocar em discussão naquele 20 de novembro.
A intenção nunca foi diminuir a importância dos imigrantes italianos ou de tantas outras famílias que chegaram depois e ajudaram decisivamente a construir Valinhos. A pergunta era outra: por que contar apenas uma parte da história quando tantas mãos participaram dessa construção?
Agora, Jerci Maccari leva essa pergunta para outro território. O que antes estava escrito em palavras aparece diante dos olhos em forma de arte. E a arte possui uma característica poderosa: não precisa necessariamente oferecer respostas. Muitas vezes, sua maior contribuição é impedir que determinadas perguntas sejam esquecidas.



Do editorial para a tela
Há algo especialmente significativo no caminho percorrido por essa reflexão. Uma publicação jornalística provocou um debate. O debate encontrou um artista. E o artista devolveu a questão à cidade transformada em obra.
“Remonumento” não é apenas o nome da tela. A palavra parece traduzir aquilo que a própria obra propõe: olhar novamente para um monumento conhecido, desmontar simbolicamente seus significados e perguntar o que e, principalmente, quem ele representa.
Não se trata de apagar uma memória para colocar outra em seu lugar. Trata-se de reconhecer que a história de uma cidade pode ser maior do que aquela representada por seus monumentos.
Talvez seja a hora de completar a história
Valinhos tem profundas marcas da imigração italiana. Elas estão nos sobrenomes, nas famílias, na agricultura, nas tradições, nas festas e na própria identidade cultural do município. Reconhecer isso não impede reconhecer também aquilo que veio antes.
A presença negra faz parte da formação histórica deste território e merece igualmente ser conhecida, pesquisada, preservada e representada.
Jerci Maccari fez isso à sua maneira. Pegou pincéis, tintas e uma tela e acrescentou uma nova camada a uma discussão que começou com palavras.
Quase um ano depois daquele editorial, o Pé de Figo volta ao mesmo monumento. Mas agora não estamos olhando apenas para ele. Estamos olhando para o “Remonumento”.
E talvez a obra nos convide justamente a isso: não derrubar a história que conhecemos, mas ampliá-la para que nela também caibam aqueles que durante tanto tempo permaneceram fora do quadro.
