Dados do Instituto Trata Brasil revelam que 38,6% da água se perdia na distribuição em 2024. DAEV afirma que vem reduzindo o desperdício desde 2025, mas índices ainda preocupam e mostram o tamanho do desafio para a cidade.
Valinhos apresenta índices elevados de atendimento à população com água tratada, mas convive com uma contradição que chama a atenção: enquanto 4.881 moradores ainda não têm acesso ao serviço, quase 40% da água distribuída pelo sistema público se perde pelo caminho.
Os números são do Painel Saneamento Brasil, plataforma do Instituto Trata Brasil, com base em indicadores de 2024. Naquele ano, dos 131.277 habitantes do município, aproximadamente 96,3% tinham acesso ao abastecimento de água. Um resultado positivo, mas que está longe de representar a universalização do serviço.
O dado mais preocupante, entretanto, está na eficiência da distribuição. Valinhos registrou perdas de 38,6% da água, além de um índice de perdas no faturamento de 30,9%. Em outras palavras, uma parcela expressiva da água produzida e disponibilizada pelo sistema não se transforma em consumo devidamente contabilizado e faturado.
E isso tem consequências que vão muito além das contas da empresa: representa desperdício de recursos naturais, custos de tratamento e distribuição, pressão sobre a infraestrutura e desafios para a sustentabilidade financeira do abastecimento.
Milhões de reais em jogo
Em 2024, a receita operacional direta com o abastecimento de água registrada pelo DAEV foi de R$ 50.247.374,37, segundo os dados apresentados.
Considerando o índice de 30,9% de perdas no faturamento, uma comparação aritmética com essa receita resulta em aproximadamente R$ 15,5 milhões. Isso não significa, porém, que o DAEV tenha efetivamente deixado de arrecadar esse valor. Os indicadores possuem metodologias específicas e não permitem calcular diretamente o prejuízo financeiro pela simples aplicação do percentual sobre a receita.
Ainda assim, a dimensão dos números levanta uma questão importante: quanto a cidade poderia economizar, recuperar em receitas e investir na melhoria do abastecimento com um sistema mais eficiente?
Para esclarecer o cenário, o Pé de Figo procurou a assessoria de comunicação do DAEV S.A., responsável pelos serviços de saneamento em Valinhos.
DAEV reconhece o problema e aponta redução das perdas
Em resposta ao Pé de Figo, o DAEV informou que os índices vêm apresentando redução desde o início da atual gestão, em 2025, como resultado de investimentos na modernização da infraestrutura, combate a vazamentos e aprimoramento da medição do consumo.
Segundo levantamentos internos da companhia, o índice de perdas na distribuição passou de 38,6% em 2024 para 38,4% em 2025, chegando a 38,1% em 2026.
Embora indiquem uma tendência de redução, os números também revelam que a queda acumulada foi de apenas meio ponto percentual, mantendo o desperdício em patamar elevado.
A empresa esclareceu que, dos atuais 38,1% de perdas, aproximadamente 27 pontos percentuais correspondem às chamadas perdas físicas, provocadas principalmente por vazamentos nas tubulações. Outros 11 pontos percentuais são classificados como perdas aparentes, relacionadas a problemas de medição, fraudes e ligações clandestinas.
Essa distinção é importante porque nem toda água perdida representa receita que poderia ser integralmente recuperada. Os vazamentos significam desperdício de água já captada e tratada, enquanto falhas de medição e irregularidades podem representar consumo não faturado.
Obras, hidrômetros e controle da pressão
Para enfrentar o problema, o DAEV informou que vem substituindo redes antigas de abastecimento, com intervenções realizadas no Jardim São Cristóvão e na Vila Santana. Novas obras estão previstas para o Jardim Pinheiros, Jardim São Marcos e região central.
Outra medida é a implantação de um sistema de controle de pressão, com 34 válvulas redutoras, destinadas a diminuir o risco de rompimentos e vazamentos nas tubulações.
A empresa também informou que substituiu 3.950 hidrômetros no primeiro semestre de 2026 e estabeleceu a previsão de alcançar 8 mil substituições até o encerramento do ano.
Segundo o DAEV, houve ainda melhoria no tempo de atendimento aos problemas registrados na rede. No primeiro semestre de 2026, o tempo médio de reparos em cavaletes caiu 44%, enquanto o prazo para reparos em redes, ramais e ligações apresentou redução de 64%.
São medidas importantes, mas seus resultados precisam ser acompanhados continuamente, sobretudo diante da dimensão das perdas ainda registradas.
O desafio de transformar água tratada em água que chega às casas
O DAEV afirma trabalhar para alcançar um índice de perdas de 25% até 2033, meta apontada pela companhia em referência ao Marco Legal do Saneamento.
O desafio, portanto, é significativo. Partindo dos 38,1% informados para 2026, será necessário reduzir as perdas em outros 13,1 pontos percentuais nos próximos anos.
O Marco Legal do Saneamento também estabelece metas nacionais de universalização até 2033, incluindo atendimento de 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto.
Para Valinhos, os números deixam uma mensagem clara: não basta ter capacidade de captar, tratar e distribuir água. É indispensável garantir que ela chegue às residências, com o menor desperdício possível e com acesso para todos.
Uma cidade que ainda tem quase 5 mil pessoas sem acesso à água tratada não pode considerar concluída sua missão no saneamento básico. E um sistema que perde mais de um terço da água distribuída exige investimentos, planejamento, transparência e resultados mais expressivos.
Afinal, água tratada custa dinheiro, exige infraestrutura e depende de um recurso natural cada vez mais precioso. Cada litro desperdiçado representa uma perda que Valinhos precisa enfrentar.
