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Em primeiro lugar, o retrospecto não pode ser considerado ruim. Em 21 jogos, Eduardo Baptista obteve 14 vitórias.

A demissão de Eduardo Baptista, após cinco meses no comando  do Palmeiras, é injustificável. Enquanto os reais motivos pela dispensa do (agora) ex-treinador não forem alcançados (especula-se muito sobre a sua relação com Mattos, o seu desabafo em entrevista coletiva, ou a escalação de quem dirigentes e conselheiros não gostariam), desligá-lo pela razão sobre aquilo que o Palmeiras apresentou em campo neste começo de temporada, como justificou o presidente Galiotte em entrevista coletiva na manhã desta sexta-feira (6), é um erro grande. Igualmente grave é comemorar ou apoiar a tal decisão como fizeram torcedores  e conselheiros palmeirenses.

Em primeiro lugar, o retrospecto não pode ser considerado ruim. Em 21 jogos, Eduardo Baptista obteve 14 vitórias (três na Copa Libertadores e 11 no Campeonato Paulista), dois empates (um em cada torneio), e cinco derrotas (quatro no estadual e somente uma no torneio sul-americano). O time marcou 40 gols e sofreu exatamente a metade. Números que também podem ser traduzidos em um percentual de aproximadamente 70% dos pontos conquistados.

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Em defesa da decisão dos dirigentes palmeirenses, os torcedores interpretam que a eliminação para a Ponte Preta na semifinal do Campeonato Paulista, as sufocantes e intranquilas vitórias na Libertadores e a derrota para os bolivianos do Jorge Wilstermann, na quarta-feira (3), pelo torneio continental,  sejam argumentos suficientemente válidos para que se tenha uma mudança de treinador.

Porém, é difícil sustentar tal posição. Eduardo Baptista pode não ter conseguido avançar para a decisão do torneio estadual, mas não se deve negar a boa campanha que realizara na primeira fase. Digna, no mínimo, de respeito – classificou o Palmeiras em primeiro lugar com quatro rodadas de antecedência. Na Libertadores, Eduardo teve a sua primeira derrota somente na quinta partida e mesmo assim se manteve em primeiro lugar do grupo, com amplas chances de se classificar na mesma condição atual.

A questão, no entanto, é que não se trata apenas da demissão de Eduardo Baptista ou somente sobre a relação de Palmeiras e Eduardo Baptista. O que aconteceu está além disso. É algo maior e mais estrutural.

Trata-se da maneira como estamos construindo os alicerces do nosso atual futebol e como, a partir desta visão, instituímos uma cultura na qual tratamos as vitórias e títulos como obrigações e encaramos as derrotas e eliminações como situações quase que ilegais. Aliás, vem crescendo no Brasil uma postura que impõe um movimento de sobe-e-desce ilusório na fantasia de torcedores e dirigentes à medida que o time perde e ganha. A quantidade necessária de jogos para colocarmos um time no alto ou decretar uma crise tem diminuído ano a ano.

O que foi demonstrado pela diretoria e torcida palmeirenses não são somente um perigoso vício pelas conquistas e a intolerância pelos insucessos. Mas uma distorção capaz de produzir e fortalecer uma espécie de consciência e de um comportamento que tornam a derrota algo inconcebível.

O que faz o caso de Eduardo Baptista, inclusive, ser ainda mais preocupante. Porque se antes as derrotas eram cada vez menos aceitáveis, hoje, vencer não basta. É necessário ganhar de forma que não levante dúvidas, de maneira inquestionável; é preciso ganhar com maestria, jogando bem e sendo imponente; é preciso ser incontestável do começo ao fim e não somente no fim. Esta inflexibilidade, tal como apresentada pelos palmeirenses facilmente descontentes com Eduardo Baptista, não é positiva para o futebol.

Porque pode até ser compreensível ver torcedores questionando com maior veemência. Mas ter uma diretoria pacientemente instável, desacreditada no próprio projeto e usando o alto poder de gestão que possui para tomar uma decisão, tal como um torcedor frustrado, é dar a chance para, repentinamente, colocar o time em direção a uma crise que se encontra no horizonte. O Palmeiras se equivocou na leitura da própria situação e não foi capaz de sustentar a própria aposta.

Além disso, com este excesso de demissões intempestivas, produzimos uma classe de treinadores com pouca capacidade de resiliência. Afinal, há poucas chances para esta habilidade ser praticada e desenvolvida pelos técnicos, uma vez que na primeira situação complicada o instrumento de resolução do problema é a demissão. A continuidade de um trabalho e de ideias raramente acontece. Se os treinadores tivessem, ao menos, mais chances para superar uma fase ruim, e se forçando a implantar novas propostas de jogos, possivelmente uma evolução técnica e mental da categoria aconteceria. Mas o que a rotina nos apresenta é totalmente o oposto.

Técnicos como Cuca, que por sinal, teve sua volta confirmada na noite de sexta, horas depois da demissão de Baptista. Embora com muito apoio, Cuca pode também ser prejudicado pelo tipo de Palmeiras que existe neste momento pós-Eduardo. A confiança e a esperança em seu trabalho estão em alta, mas ao mesmo tempo, vêm daqueles que o obrigarão uma melhora de rendimento do time a qualquer custo. E se dentro das fantasias palmeirenses fanáticas isto é totalmente possível, no plano da realidade, os resultados provavelmente não atingirão as expectativas tão cedo.

Hoje, Eduardo Baptista é passado. Tornar-se rapidamente uma lembrança sempre esteve dentro das reais possibilidades enquanto dirigiu o Palmeiras. Eduardo saiu porque seu time nunca foi suficientemente bom e nunca seria pelo nível de cobrança e daquilo que esperavam torcedores e dirigentes; foi demitido porque precisou dar espaço a quem o Palmeiras sempre quis que fosse o treinador; saiu pois foi vítima de uma ordem que vem crescendo e é responsável por tornar o futebol um lugar onde perder é proibido.

Eduardo Baptista, que chegou com gás e muito empenho, foi um presente curto, cuja condição de ex sempre caminhou ao seu lado.

Por Caio Possati

(Foto Fernando Dantas/Gazeta Press)

 

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