Por Athanis Rodrigues

É muito difícil pra alguém que não sofre de nenhuma doença da mente entender aqueles que a sentem.

É inexplicável pra quem nunca sentiu depressão conhecer alguém que tem todas as condições pra ser feliz – saúde, acolhimento da família e dos amigos, um bom emprego – e não consegue sair da cama, do quarto, da própria caverna.

Quando eu era bem pequeno, 4 ou 5 anos, e via minha mãe chorar sucessivas vezes “sem motivo”, sentia desde cedo a impotência de não poder ajudar alguém que se ama.

“Por que a mãe tá chorando, pai?”

– Ela está triste, filho – meu pai respondia.

Mas eu nunca acreditei. Tristeza passa. Mas os dias passavam e minha mãe volta e meia voltava a chorar.

Posso dizer que na minha família existe um time inteiro de futebol de depressivos. Alguns sabem, mas não admitem. Outros não sabem e se entregaram ao álcool, ao cigarro e à televisão. Alguns acham que é simplesmente frescura e sentem vergonha de compartilhar aquela dor com aqueles que amam.

E eu – eu sou um deles.

Talvez eu tenha uma diferença do resto: assim como minha mãe, aceitei – aceitamos – nossa condição, pedimos ajuda e tomamos consciência de que a vida só vale a pena do lado de quem a gente ama.

Porque sozinhos… Sozinho só resta mesmo dar um fim nisso.

A gente precisa aprender a falar abertamente sobre o suicídio, a forma mais triste da morte.

Foi só com 31 anos, depois de muitos psicólogos, psiquiatras, remédios, filosofia e poesia que aceitei, finalmente, padecer da doença chamada ansiedade.

Uma doença em que você se torna ao mesmo tempo torturador e vítima de tortura. Você se torna ao mesmo tempo Dilma Rousseff e Carlos Alberto Brilhante Ustra numa sala escura.

Imagine habitando em você duas pessoas. Uma que tortura com vozes, pensamentos, ideias horríveis, sofríveis, sobre a morte e a dor de todos aqueles que você ama, sobre fatalismos, tragédias, sobre a injustiça permanente do mundo – e outra pessoa que ouve tudo, sente tudo, chora sem parar, sofre na pele uma dor que não pode localizar, um buraco no peito, uma náusea sem vômito.

E que não pode fugir, porque está presa.

Não consegue sair da sala – que está trancada, mofada, fétida. Conseguiu visualizar o que é a depressão com essa analogia da nossa história?

Nossa história. Nossa.

Que nenhum revisionismo tosco vai ser capaz de apagar.

Com 31 anos eu entendi que a mesma ansiedade que sentia com 11 anos no primeiro dia de aula de uma nova escola é a que sinto quando leio a próxima asneira que Bolsonaro fala.

Aceitei, com humildade, que era doente.

E que apesar do mundo ser muito triste mesmo, metade dessa tristeza era algo meu.
Algo químico, bioquímico, uma deficiência das minhas sinapses neuronais.

Eu sei – e você sabe – que esse monte de merda que o Bolsonaro diz nos afeta mesmo. Mas é pra isso que servem. Pra nos afetar. Pra despolitizar as pessoas, que começam a ter ódio e nojo da política – e assim se tornam mais facilmente manipuláveis.

Estamos em franca ditadura mental – ainda que você se isole numa praia paradisíaca e esteja só você e o vendedor de coco falando da beleza das árvores, o radinho dele vai anunciar alguma frase absurda, grotesca, brutal.

E vocês dois ver-se-ão obrigados a comentá-la. Obrigado por essa metáfora, Gregório Duvivier, eu sou seu fã.

Bem-vindos ao que se convencionou chamar de “guerra híbrida”. Mas não se desesperem como eu e tantos dos meus amigos que em algum momento sentiram esse desespero. Isso tem cura.

Não estou misturando os assuntos. Eles nasceram juntos. O que minha ansiedade e depressão, que são químicas, tem a ver com a política do governo federal no Brasil?

Tudo.

Vivenciei inúmeros momentos de crise de pânico desde os meus 22 anos por não conseguir lidar com meus problemas pessoais.

Pedi ajuda.

Mas é difícil aceitar que se precisa de ajuda quando a vida inteira te disseram que você é inteligente, sortudo, capacitado – mais ainda quando você tem a plena consciência disso, de que estão certos.

É difícil aceitar que conhecer a história de toda a filosofia ocidental não vai te salvar da tristeza e do sofrimento, embora possa – e com certeza vai – te ajudar.

É difícil aceitar ajuda quando a gente passa a vida se construindo pra ser autônomo, forte, independente, assim mesmo pra orgulhar nossos pais, pra que eles jamais sintam medo de ir embora achando que você ainda precisa do amparo deles, mesmo tendo 50 ou 60 anos.

Eu lutei a vida inteira pra ser essa pessoa – e a vida me ensinou que mesmo assim eu era só um menino precisando do colo da minha mãe, brincar na rua com meus amigos e curtir as coisas simples e banais que nenhum dinheiro paga.

Que todos nós somos frágeis seres sofríveis, e que nossa única fórmula de felicidade é se unir. O casamento é só uma metáfora da política e dos contratos jurídicos. Quando percebemos que vamos definhar de solidão e tristeza se não aprendermos a ser família com os familiares e ser família com os amigos e ser família sempre que for possível criar amor, com desconhecidos que seja – aí sim a gente adquiriu consciência política.

A política é movida por afetos. A política é a soma de todas as dimensões de nossas vidas.
E graças a outubro de 2018 eu voltei a sentir picos de ansiedade, crises de pânico e dias de depressão.  Dias em que eu não trocava de roupa, em que eu não tomava banho, em que eu não comia, em que minha casa seguia empoeirada, em que até as lâmpadas da sala estavam queimadas e eu seguia num escuro absoluto, dentro e fora de mim. Dias em que eu não queria conversar com ninguém, em que eu sofria acaso tivesse que estar com pessoas que na verdade eu amo: minha família, meus amigos.

Se você já sentiu isso alguma vez na vida, você não está sozinho. Isso não é culpa sua.
Nestes dias de mendigo sem causa e com casa, varava o tempo sem obrigações com a única luz que havia – da tela do meu celular – lendo notícias de política, ouvindo palestras de política.

Até ler livro sobre política à luz de velas e fedendo suor, sem comer, era a minha realidade.
E então eu percebi. Percebi que a minha doença não era apenas bioquímica. E que não
adiantaria mais eu escrever conto, crônica e poesia como nos últimos quinze anos pra tentar me sentir melhor.

A minha primeira terapia – a palavra – precisava dar lugar a outra: a militância.

Quem não gosta de política acha muito estranho alguém gostar.

Coisa de louco. Hoje, eu não sei mais se eu gosto de política ou se deixar a política invadir todo meu corpo físico e mental é uma condição pra sobreviver. Acho que é mesmo uma necessidade.

Obrigado, Bolsonaro.

Graças a você eu me envolvi com o Partido dos Trabalhadores. Eu me filiei ao PT por causa do Lula – mas foi por sua causa que eu passei a trabalhar pelo PT, a trabalhar pelos meus amigos, a trabalhar pela minha família, a trabalhar pelos meus ideais. A trabalhar por mim e pela minha felicidade.

Obrigado, Bolsonaro.

Athanis Rodrigues é militante do PT Valinhos, Bacharel e mestre em Direito e Oficial de Justiça em Valinhos.

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