Por Athanis Rodrigues

No dia 18 de julho de 2019, um militante do MST foi assassinado em Valinhos-SP durante um protesto por água canalizada.

Luiz Ferreira, de 72 anos, protestava por água e terra quando foi atropelado de maneira intencional. Outras 26 pessoas ficaram feridas.

Luiz morreu fazendo política, mas mais que isso, morreu defendendo outras pessoas que estavam na trajetória do veículo do assassino.

Então, sem nenhum exagero, eu choro agora a morte de um senhor que definitivamente morreu como um mártir.

Quando recebi a notícia, por algumas horas ela simplesmente não fazia sentido na minha cabeça. Os sintomas da minha ansiedade e depressão foram brotando sucessivamente.

Naquele momento, não conseguia converter a consternação nem em lágrimas nem em tristeza, indignação ou palavras.

Meus pensamentos foram bloqueados, meu coração passou a palpitar rapidamente, minhas mãos ficaram geladas e suadas, senti tontura, meu estômago embrulhou e, por alguns instantes, durante uma crise de pânico, comecei a achar que iria desmaiar ou enfartar. Uma condição que infelizmente retornou ao meu corpo desde outubro de 2018.

Passados três dias da fatalidade, acordei chorando copiosamente, sentindo um frio inexplicável na nuca e tremendo, fora de controle. Percebi que havia entrado em trabalho de luto.

Mas também lembrei de que uma semente, quando é colocada debaixo da terra, faz germinar uma nova planta.

Essa planta cresce e desenvolve dezenas de flores. E essas flores dão origem a centenas de frutos. Cada um desses frutos, ao longo do tempo, alimenta milhares de pessoas. É assim que a natureza funciona.

Luiz, o senhor germinou o futuro da nossa luta. E cada uma das flores nascidas de seu enterro vão gerar os frutos da nossa próxima alimentação.

E depois de sentirmos na boca o doce sabor desses frutos, teremos a energia necessária para seguir no enfrentamento, revigorados e perseverantes.

Todas as vezes que vocês tentarem calar-nos politicamente, no dia seguinte ouvirão milhares de vozes mais altas.

Cada uma das instituições ligadas às classes populares que forem atingidas darão lugar a manifestações de rua dez vezes maiores que a sala comercial em que se realizam as atividades de um partido, sindicato ou movimento social.

Todas as vezes que vocês eliminarem a vida e a existência de um dos nossos, centenas de novos militantes vão engrossar a nossa causa e lutar conosco pelos ideais de liberdade.

Em todos momentos históricos da civilização humana, houve apenas um tipo de luta: a luta contra a opressão.

Hoje, lutamos contra um sistema que produz e reproduz opressão por meio da desigualdade social, da concentração de poder e de renda. Esse sistema chama-se Capitalismo.

Luiz, sua morte injusta e brutal representa o atual estado de coisas em nosso país. Mas também nos impulsiona ao enfrentamento.

Luiz Ferreira era uma das inúmeras sementes que nos levam a uma revolta incontrolável.

Descansa agora ao lado de Marielle Franco, Chico Mendes e tantos outros que lutaram por um meio ambiente saudável, uma sociedade justa e contra a opressão e a pobreza.

Vamos seguir lutando para que tenhamos uma democracia digna e um povo sem fome.

E o dia em que sentirmos que nossa frágil democracia rompeu-se – mais uma vez – eu aviso vocês: vamos continuar lutando com as ferramentas que forem necessárias.

Vamos lutar até a morte ou até vitória, sempre.

Vocês podem pisotear uma flor, podem prender Lula, podem metralhar Marielle ou podem atropelar Luiz Ferreira.

Mas nunca irão conter nossa primavera avassaladora.

Preparem-se.

Athanis Rodrigues é militante do PT Valinhos, Bacharel e mestre em Direito e Oficial de Justiça em Valinhos.

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