O vereador Sidmar Rodrigo Toloi (DEM)

Para o diretor da associação, Josué Roupinha Junior, “Fazemos um trabalho muito importante na cidade no 20 de Novembro e reiteramos que exigimos um pedido formal de desculpas do vereador à população negra da nossa cidade.”

A Associação Cultural Afro-Brasileira de Valinhos publicou uma nota de repúdio ao vereador Rodrigo Tolói (DEM) após o parlamentar discursar na sessão da Câmara de Vereadores desta terça-feira (19), propondo a exclusão do feriado municipal da Consciência Negra (20 de novembro).

Para o diretor de comunicação da associação, Josué Roupinha Júnior, “enquanto o Brasil registra um número alarmante de mulheres vítimas de violência doméstica, devido o isolamento social, enquanto o Brasil enterra mais um jovem vítima do genocídio negro e enquanto mais de 17 mil vidas foram interrompidas pela COVID-19, o vereador Rodrigo Tolói está preocupado em fazer uma emenda à Lei Orgânica do Município para retirar o 20 de Novembro como feriado em Valinhos. Há ações muito mais importantes e efetivas a serem feitas neste momento, para salvar vidas, para salvar a saúde e a economia”, diz Roupinha.

“O nobre edil se esquece que a função de um parlamentar é essencial em um momento como este. Não aceitamos essa postura enquanto Associação Cultural Afro Brasileira de Valinhos e enquanto valinhenses. Fazemos um trabalho muito importante na cidade no 20 de Novembro e reiteramos que exigimos um pedido formal de desculpas do vereador à população negra da nossa cidade.” (Josué Roupinha Junior)

Veja na íntegra a Nota de Repúdio:

NOTA DE REPÚDIO AO VEREADOR RODRIGO TOLÓI (DEM)

Com estarrecimento, revolta e, até mesmo, pena assistimos ao discurso do vereador Rodrigo Tolói (DEM), na sessão ordinária da Câmara Municipal de Valinhos, que ocorreu hoje.

Do alto do seu desconhecimento sobre a luta do negro em Valinhos para que o 20 de Novembro se tornasse um um feriado municipal, o vereador Tolói sugeriu que fosse feita uma emenda à Lei Orgânica da nossa cidade, retirando o 20 de Novembro como feriado municipal, alegando que a data atrapalha a economia da cidade.

Desconhece o vereador o trabalho realizado pela Associação Cultural Afro-Brasileira de Valinhos nesta data, em nossa cidade, na festividade da Consciência Negra realizada anualmente.

Desconhece o vereador que nesta data, muitos comerciantes e feirantes participam da festividade para vender seus produtos.

Desconhece o vereador que a população negra desta cidade sorteia brinquedos às crianças carentes na festividade da Consciência Negra.

Desconhece o vereador que no ano passado, pela primeira vez, um grupo de terreiro esteve na festividade para valorizar a cultura negra valinhense e as religiões de matriz africana da nossa cidade.

Desconhece o vereador que após a emancipação do município, Valinhos até então elegeu somente uma mulher negra para o legislativo e para o Executivo.

Do alto da sua falta de conhecimento, acredito que o vereador não tenha visto que mais um jovem negro foi assassinado hoje no Brasil, justamente pelo fato de ser negro.

Vereador Rodrigo Toloi, a Associação Cultural Afro-Brasileira de Valinhos repudia sua fala sórdida e exige um pedido de desculpas formal.

Lembro ao vereador que o importante para a economia da nossa cidade é o pleno emprego. É a igualdade de direitos e oportunidades aos homens e mulheres, sejam eles brancos ou negros.

Enquanto o vereador se preocupa em cancelar um feriado, nossa Associação tem trabalhado diuturnamente para atender as famílias valinhenses em situação de vulnerabilidade social e que não tem sequer um alimento para por em suas mesas. E o senhor tem feito o quê?

Vereador Rodrigo Toloi, encerro essa Nota fazendo uma pergunta: por que somente o feriado da Consciência Negra em Valinhos incomoda tanto a Vossa Excelência?

Assina esta nota a Associação Cultural Afro-Brasileira De Valinhos

O Pé de Figo não localizou o vereador para ouvir a dele a sua posição a respeito do assunto.

1 Comentário

  1. Aproveitando a nota de repúdio da Associação Cultural Afro-Brasileira de Valinhos, que com sabedoria e senso de justiça exige um pedido formal de desculpas do vereador Rodrigo Toloi à população negra da cidade, gostaríamos de exigir que também a cidade de Valinhos, por meio de sua Prefeitura e de sua Câmara Municipal, peça formalmente desculpas pela forma como as pessoas negras tem sido tratadas historicamente neste município.
    À proposta infeliz do vereador Toloi de excluir o feriado municipal da Consciência Negra (20 de novembro), somam-se discursos racistas proferidos ao longo da história da cidade por ex-vereadores, ex-prefeitos e outras pessoas públicas. Só para citar um exemplo, o historiador Mario Pires, no livro Valinhos, tempo e espaço, descreve a lembrança de “dois velhos valinhenses” sobre o final do século XIX. Eles mencionam o lamaçal que cercava a estação ferroviária do município e dizem que, “em dias de chuva, as crianças e as mulheres eram transportadas de um lado para o outro nos ombros dos pretos” (PIRES, Mario. Valinhos, tempo e espaço. Campinas: Academia Campinense de Letras, 1978, p. 50). Um dos “dois velhos valinhenses” em questão é Hygino Guilherme Costato, sub-prefeito de Valinhos (na época, distrito de Campinas) na década de 1940 e que exerceu por duas vezes o cargo de presidente do Clube Atlético Valinhense (1931 e 1944-47). Como a cidade lidou e lida com esse tipo de declaração? Parece-nos que Hygino Guilherme Costato foi considerado digno de homenagem, já que dá nome a uma rua localizada no bairro Jardim Pinheiros…
    Gostaríamos também de saber o que aconteceu com a população negra escravizada que aqui residia até a abolição formal da escravidão no ano de 1888, já que o destino dessas pessoas é grandemente silenciado pela história tradicionalmente contada no município, e pesquisas historiográficas dão notícia de massacres praticados contra essa população ao longo da história brasileira e da nossa região. E sabemos, por relatos de colegas, amigas e amigos, negras e negros, que o preconceito racial está presente na vida da cidade, nos locais públicos, nos Shopping Centers e nos condomínios, nos quais muitos prestadores de serviços e empregadas domésticas, negros e negras, continuam a trabalhar mesmo em meio aos riscos trazidos pela pandemia do novo coronavírus.
    Entendemos que superar o histórico preconceito racial na cidade de Valinhos exige que se reconheça a sua existência passada e presente. Por isso, e para que propostas como a do vereador Toloi deixem de existir, exigimos que a Prefeitura e a Câmara Municipal de Valinhos peçam desculpas, de maneira humilde, cordial e formal, para a população negra da cidade.

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