Foto: Érika Mayumi

A contemporaneidade da nova MPB tem revelado novos talentos em sua cena musical e, nesse contexto, a cantora Martina Marana lança um trabalho autoral no qual assume toda a sua potência como compositora e instrumentista.

Contemplado pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, por meio do Programa de Ação Cultural (PROAC – edital no. 21 de 2018 – Música Popular), o projeto autoral de Martina é quase catártico a medida que ela se liberta de rótulos sexistas e se reencontra como instrumentista e compositora. Com pitadas irônicas em algumas composições, ela critica o preconceito machista existente no meio musical que oprime as mulheres instrumentistas. O ápice da catarse com o tempero jocoso está na composição:  ” Eu toco mal” que dá nome ao projeto musical e possui o arranjo primoroso  de Paulo Paulelli, o baixista é reconhecido no cenário nacional como um dos mais virtuosos músicos da nova geração. Paulelli integra o Trio Corrente,  ganhador do  Grammy na categoria de melhor álbum latino de jazz por “Song For Maura“, gravado em parceria com o saxofonista cubano Paquito D’Rivera.

 Ao cantar “Eu toco mal, eu cozinho mal/ Sou companhia indispensável de hospital” Martina vocaliza a fala de muitas mulheres que se identificam prontamente nos versos ” Eu toco mal, eu dirijo mal/Mas viajo sozinha para o litoral/ No carnaval ele não me quer/ Não dança com ninguém quem for sua mulher“.

Martina Marana iniciou sua carreira como instrumentista tocando violão e relata a opressão sofrida por mulheres a partir do universo machista no meio musical. ” Na adolescência, as bandas são formadas por meninos.  Não há espaço para as garotas e isso persiste também na carreira, geralmente as mulheres acabam percorrendo uma trajetória como cantoras. A aceitação é melhor para a cantora do que para a instrumentalista. Eu me senti melhor aceita como cantora apesar de ser instrumentista muito antes de ser cantora. Comecei estudando e toco violão  mas o  machismo  que existe no meio acaba nos oprimindo de uma tal forma que por muitas vezes até duvidei da minha capacidade em tocar “.   A artista faz da música o seu lugar de fala feminina por meio da arte – segundo ela; ” As composições trazem muito da minha experiência vivida como musicista. As mulheres que tocam algum instrumento e também cantam geralmente são direcionadas para a carreira de cantora. As mulheres quando são instrumentistas se lançam em um trabalho próprio como artista e não como uma acompanhadora de outro artistaBasta ver o talento de algumas mulheres que são excelentes instrumentistas como Joyce e a Rosas Passos”

O álbum ” Eu toco mal”   também possui composições extremamente poéticas e sensíveis que possuem arranjos belíssimos. A música que abre o disco – ” Ceguei”-  o amor recebe versos como ” Deu nos jornais/ Que ele não me deixaria em paz /Não li, rasguei/ Então voltei atrás/ Brincou, sorriu de primeira /Atento à conversa inteira/ Ganhou a minha confiança/ Como num tiro certeiro /Mostrou-se um bom companheiro/ Fiquei”.  Um samba que conta com o arranjo esmerado de Marcus Teixeira, guitarrista  que possui participação em trabalhos premiados pelo Grammy.

O projeto musical da artista nasceu a partir do estímulo do pianista e arranjador Felipe Silveira quando ao ouvir algumas das composições de Martina disparou: ” Você tem que gravar”.  A inquietação que nasceu a partir da provocação do Felipe gerou esse trabalho sensível e ao mesmo tempo forte, com arranjos impecáveis compondo um repertório engajado na cena contemporânea da nova MPB.

A combinação dos talentosos arranjos do álbum ” Eu toco mal”    encontra fluidez no som da cantora, compositora e instrumentista. Martina traz a influência de músicos consagrados como Milton Nascimento, João Bosco, Joyce, Djavan, dentre outros e explora sua vertente jazzística e improvisacional, fruto de seu trabalho como pesquisadora em música na Unicamp.

A artista possui diversos shows agendados na turnê de lançamento do disco.  Cidades do interior paulista como: Campinas, Jundiaí, Itatiba e Nova Odessa, foram escolhidas e o público dessas cidades poderão conferir o talento de Martina Marana que estará acompanhada dos músicos: Felipe Silveira (teclado), Marcus Teixeira (guitarra) Felipe Fidelis (contrabaixo), Celso de Almeida (bateria) e da musicista Gabriela Machado (flautas)

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