Recuperado depois de ser testado positivo para Covid-19 e ser hospitalizado, experiente e prestigiado médico da cidade relata, entre outros assuntos, como foi lutar contra a doença nesta conversa exclusiva com o portal Pé de Figo

Por Caio Possati

Em março, quando a pandemia do novo coronavírus já obrigava os brasileiros a isolarem-se em casa, o médico Ruy Meirelles – também conhecido como Dr. Ruy – ofereceu o telefone de sua residência e se colocou a serviço de todo cidadão valinhense interessado em tirar dúvidas médicas e em fazer, dentro do possível, uma consulta à distância.

Mas dias depois, de médico, Ruy passou a ser paciente também. Testado positivo para Covid-19, uma das maiores autoridades em medicina de Valinhos precisou ser internado na Santa Casa da cidade no início do mês passado. Recuperado, o médico busca hoje retomar a rotina regular de exercícios físicos e de atendimentos na sua clínica particular. “Não estou entrando no hospital porque ainda tenho receio, mas estou atendendo no consultório”.

O consultório a qual ele refere-se nos dias de hoje, era, no passado, a sua casa. E foi morando nela que Ruy Meirelles precisou, certa vez, em uma noite de 1982, ir à Santa Casa, três vezes na mesma madrugada, para atender pacientes acometidos por meningite, em um surto que assustou os valinhenses na época.

A lembrança foi relatada por ele quando perguntado se já havia vivenciado algo semelhante à crise do novo coronavírus. Mas não respondeu sem antes afirmar, categoricamente, que, mesmo com mais de 80 anos “eu nunca vi uma situação tão triste, universal, agressiva e desconhecida como a do coronavírus”.

Na manhã desta quarta-feira (13), “Dr. Ruy” recebeu o jornal Pé de Figo para um entrevista exclusiva.

Na conversa, o experiente médico de 82 anos, pioneiro no movimento de descentralização da saúde pública valinhense, levando quatro postos às periferias da cidade quando foi vice-prefeito na década de 80, e dono de uma prestigiada carreira médica, deu os detalhes da sua internação (“Tomei tudo o que você pode imaginar”); exigiu maiores investimentos na saúde pública e para o SUS; elogiou o sistema de saúde de Valinhos, arriscou previsões para o futuro da medicina pós-pandemia, e sobre o que pode frear a pandemia, foi enfático: “o que realmente funciona para prevenir a transmissão do Coronavírus? O distanciamento!”.

Confira a entrevista!

Pé de Figo: Dr. Ruy, como o senhor está se sentindo?

Dr.Ruy:  Eu estou muito bem. Mas esta doença, aparentemente, deixa algumas sequelas. Por exemplo, a única coisa que estou com dificuldade é de me alimentar, porque eu perdi o apetite e está voltando só agora. E, por conta disso, eu também emagreci. TIve também indisposição e atrofia muscular, porque eu fiquei parado. Mas acho que estou muito bem, estou voltando ao trabalho.

Pé de Figo:  E como está a sua rotina, hoje?

Dr. Ruy:  Eu levanto de manhã, faço meus exercícios na bicicleta que eu tenho em casa e depois venho para o consultório atender meus pacientes. Não estou atendendo muitas pessoas e estou limitando. Mas, estou voltando a minha rotina normal. Acredito que dentro de uma semana eu volto ao que era antes.

Pé de Figo: O senhor se lembra de ter vivido algo de proporções parecidas antes, como essa que estamos passando?

Dr. Ruy: Eu tenho mais de 80 anos e nunca vi uma situação tão triste, universal, agressiva e desconhecida como a do Coronavírus. Mas como eu trabalho aqui em Valinhos há muito tempo, eu já vi alguns episódios. Por exemplo, em 1982, nós tivemos um período de surto de meningite. E estavam todos apavorados por conta disso. Eu me lembro que teve uma noite em que me chamaram para ir ao hospital à meia-noite, eu fui e voltei; me chamaram às 2h da manhã, voltei e, às 6h, me chamaram de novo. Esse foi um período que me chamou atenção. O outro, aconteceu uns anos atrás, que foi o surto de H1N1 e a dengue. Não são tão graves, como o Coronavírus. Mas de qualquer maneira, as incidências da dengue e do H1N1 também foram muito grandes. Nós tivemos muitos casos e, inclusive óbitos de H1N1, que leva também a uma insuficiência respiratória aguda, 

Pé de Figo: Como o senhor avalia o trabalho que a cidade tem feito para lidar com a pandemia?

Dr. Ruy: Eu acho, sem falsa modéstia, que a cidade de Valinhos está muito bem servida do ponto de vista de saúde. Nós temos os postos de saúde nas periferias, a Santa Casa de Valinhos vem funcionando muito bem e está muito preparada para atender a população, graças aos médicos, enfermeiros e à diretoria, que vem fazendo um excelente trabalho – e falo isso com plena consciência. Mas, não é novidade, que o dinheiro do SUS aplicado no município é muito pequeno. O atendimento dos pacientes do SUS dá prejuízo. Mesmo que os outros convênios deem um pouco de lucro, isso não é suficiente para cobrir os custos dos doentes que o SUS atende. Por esse motivo que a diretoria [da Santa Casa] vive presente na prefeitura para que ela repasse ao hospital o montante necessário para os atendimentos pelo SUS.

Pé de Figo: Quais avanços o SUS precisa para ser melhor compreendido e reconhecido?

Dr. Ruy: Nós estamos vivendo um drama mundial e todos estão acompanhando. O SUS, hoje, está muito bem reconhecido e muito bem valorizado. E, depois que isso passar, o SUS será muito mais valorizado. O SUS é um sistema que não existe em outros países; é universal de atendimento. Acredito que os repasses dos governos dos Estados e prefeituras serão maiores para prestigiar esse sistema que, nesse período, está prestando um serviço muito bom.

Pé de Figo: Qual o melhor caminho para sairmos dessa crise com o menor número de vítimas possível?

Dr. Ruy: O Coronavírus é uma doença desconhecida e precisamos ter uma consciência comunitária e uma visão de bem comum para que o vírus de alguém não seja transmitido para outra pessoa. É uma doença extremamente contagiosa e que se transmite com muita facilidade. Começou na China e hoje 180 países já têm o coronavírus. E não se tem ainda nenhum recurso e não sabemos qual é o melhor medicamento. O que realmente funciona para prevenir a transmissão do Coronavírus? É o distanciamento. Temos que ficar em casa e usar os recursos que a comunidade estão cansadas de saber: usar máscara, usar álcool em gel, ter cuidados de higiene e, aquele, que tiver sintomas e suspeita de coronavírus, evidentemente, tem que ficar em casa. Mas, é claro, se complicar a situação, tem que ir ao hospital. Eu dou o exemplo da minha casa: uu tive coronavírus, a minha mulher teve e a minha filha também teve. A minha filha, que é aluna da APAE, teve um quadro febril, no dia seguinte teve coriza e, no terceiro dia, estava bem. Minha mulher teve uma febre,  ficou prostrada por um dia e só. E eu, que tenho boa saúde, nenhuma outra doença, não tenho diabetes, não sou hipertenso, pratico muito esporte, tive que ir para o hospital – enquanto as duas ficaram em casa. Então, esse é um grande problema da doença. Há pessoas que têm o vírus, mas têm um quadro simples, e outros que são contaminados e tem uma evolução muito grave. 20% tem o coronavírus e não tem sintoma nenhum. E uma porcentagem grande tem sintomas, uns mais simples e outros mais graves. É imprevisível. Ontem saiu um artigo interessante de um médico português que disse que estamos na fase do “achismo”. Nós estamos diante de um bandido desconhecido. E quando ele é desconhecido, nós nunca sabemos o que ele vai fazer.

Pé de Figo: Como foi a sua reação quando soube que tinha sido testado positivo?

Dr. Ruy: Eu estava indo ao hospital todos os dias, na APAE, no consultório, tudo normal. No dia 23 de março, eu me planejei para tomar a vacina da gripe, como tomo todos os anos. No dia 23, tomei a vacina e no dia 25 eu comecei a me sentir muito mal: dor no corpo, prostração, perda de apetite, cansaço. Telefonei para uma colega infectologista e outra colega clínica e perguntei se o que eu estava sentindo não poderia ser a reação da vacina. Mas ninguém soube dizer que era, poderia ser, mas poderia não ser. Eu esperei e fiquei observando por seis dias e, no sétimo, eu fui ao hospital. Eu fiz os exames, deu positivo. Fiz uma radiografia, que confirmou a pneumonia no pulmão direito. Aí fiquei internado e tomei tudo o que você pode imaginar. A hidroxicloroquina funciona? A cloroquina funciona? Ninguém sabia e eu tomei. Tomei dois antibióticos, um na veia e outro em comprimido. Tomei um remédio chamado Tamiflu, antiviral, e fiz um exame para saber se meu sangue estava coagulando bem ou não. E esse exame deu alto. Então, o grande medo é que as pessoas que têm quadro grave de coronavírus podem ter uma doença que se chama trombose intramuscular. É uma coagulação do sangue dentro das artérias.  E isso faz com que o oxigênio não chegue até o pulmão, ao fígado, ou ao aparelho digestivo. por exemplo.  E, assim, cria esses problemas sérios a ponto do indivíduo precisar ir para a UTI com uma insuficiência respiratória grave e precisar ser entubado. Então, graças a Deus,  graças à Santa Casa, graças aos colegas de enfermagem e graças à diretoria que faz um esforço para colocar o hospital em boas condições para atender a população, eu me recuperei e cinco dias depois, fui para casa. Agora estou muito bem e com vontade de voltar a minha atividade médica de forma regular.

Pé de Figo: Sobre o exercício da medicina depois da pandemia: com o frequente uso da telemedicina na quarentena, você acredita que ela poderá se firmar partir de agora?

Dr. Ruy: Não tenho dúvida nenhuma que, daqui pra frente, a telemedicina vai crescer muito. Eu vou dar um exemplo: nesse período que me predispus a atender a população, um dia uma pessoa telefona para mim e diz que estava com uma lesão muito dolorosa na perna. Eu falei: “sair da minha casa, eu não posso. Mas tira uma fotografia e me manda e posso ver se é algo mais grave ou não”. Ela me passou a imagem, eu vi e falei: “na minha maneira de ver pode ser ‘isso’ e, daqui uma semana, tire outra foto e me manda para eu ver de novo”. Eu não tenho dúvidas que a telemedicina vai se desenvolver muito. Mas existe uma norma que diz que a primeira consulta tem que ser presencial. O médico tem que conversar, olhar nos olhos, fazer os exames físicos bem feitos, fazer uma semiologia. As demais podem ser, através, da telemedicina. Outro exemplo é quando o indivíduo é hipertenso. Ao invés dele ir ao médico todo mês, o médico pode acompanhar a pressão à distância.

Pé de Figo: E sobre a formação acadêmica: será que as faculdades podem começar a ensinar outra medicina a partir da pandemia que estamos passando?

Dr. Ruy: Isso é algo que eu penso há muito tempo. Acredito que as faculdades de Medicina vão trabalhar no sentido de formar o Clínico Geral. Hoje, se pegarmos o currículo dos estudantes de medicina, todos estão partindo para fazer uma especialidade. Um vai fazer urologia, outro vai fazer gastro, ou vai fazer endoscopia, cirurgia plástica. Mas poucos gostam de fazer clínica médica. Eu não sou clínico. A minha formação é de cirurgia geral, mas depois eu fiz um curso na Unicamp de clínica geral e faço isso com muito bom gosto. Pela própria personalidade, eu nunca faria uma especialidade. Eu sempre tive uma visão médica global. Então, eu acho que, com o passar do tempo, as faculdades vão valorizar a clínica médica.O clínico geral com boa formação resolve 80% dos casos médicos quando tem uma boa formação. E também outra tendência é o investimento na formação do médico da família, que é o médico que fica responsável pelos cuidados de uma parte da cidade. Eu acho que essas duas áreas vão se desenvolver bastante. Porque reduzem o custo e tornam  a assistência médica mais barata, porque ajudam a resolver muitos casos.

Pé de Figo: O que devemos aprender, obrigatoriamente, com essa crise?

Dr. Ruy: Eu fiz a mesma pergunta para a minha mulher: o mundo será igual ou o mundo será diferente? Eu li um artigo do [filósofo] Luiz Felipe Pondé, que no final ele diz o seguinte: “nós não vamos mudar nada, apenas voltaremos à situação anterior”. Na minha opinião, eu acho que vai mudar muita coisa: o relacionamento humano, o convívio com os filhos, o bom entendimento com os vizinhos, o espírito solidário. Eu tenho a impressão que, do ponto de vista social, isso vai melhorar, como também vai melhorar o respeito à natureza também. Do ponto de vista político, eu acho que não vai ser fácil resolver. Porque vamos passar por uma fase difícil. Os governos dos estados e municípios não terão facilidades para resolver o problema financeiro. Do ponto de vista econômico, no que se refere ao trabalho, ao desenvolvimento das empresas e do comércio, eu tenho a impressão que todo mundo tem que fazer uma revisão do comportamento no sentido de reduzir custo e adotar um novo sistema para os executivos, que trabalham nas empresas, como é o home office.  Então, eu acho que muitas coisas vão mudar. Eu espero que a opinião do Luiz Felipe Pondé, daqui alguns meses, não prevaleça.

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